Relações humanas
As falas dos gurus e palestrantes do South by Southwest 2026 (SXSW), realizado em Austin, no Texas, na semana passada, giraram em torno das conexões humanas. A inteligência artificial esteve presente nos painéis, mas foi uma espécie de coadjuvante. A importância das relações entre as pessoas prevaleceu na maioria das apresentações.
O recado deixado é o seguinte: não há dúvidas de que a IA é uma ferramenta que será (já está sendo) amplamente utilizada para acelerar negócios, mas ela não passa de uma ferramenta, que não vai substituir as pessoas nem será mais relevante do que o poder do olho no olho.
Pode até parecer um jeito simplista de enxergar o potencial da IA, mas a verdade é que a curadoria do festival de inovação encontrou um jeito de dizer para a indústria não perder a capacidade humana que existe em cada um de nós.
Já a futurista Amy Webb destoou um pouco da maioria dos outros painéis, decretando o fim do seu famoso relatório de tendências sobre tecnologia e apresentando o ‘Converge outcome 2026’ por acreditar que tudo hoje se trata de convergência, com “múltiplos ambientes potencializando um ao outro, redistribuindo poder e valor”. Para ela, este será um ano muito desconfortável.
Outro guru conhecido do SXSW, Rohit Bhargava, fundador e chief trend curator da Non-obvious Company, destacou que o mercado está sofrendo com medo do que a IA reserva pela frente, mas reforçou que são as conexões humanas que nos fazem mais felizes e melhores. Ele também aconselhou as pessoas a abraçarem mais os outros e criarem relações verdadeiras.
Raja Rajamannar, sênior fellow da Mastercard, fez uma apresentação provocando a indústria a reimaginar o marketing. Para o executivo, as campanhas das marcas estão muito parecidas, com os publicitários ainda utilizando conceitos de décadas atrás. Em sua visão, o mercado demorou muito para acompanhar as mudanças trazidas pela internet e, se não se apressar, vai ficar obsoleto. Já o futurista e especialista em tendências Henry Coutinho-Mason convidou o público a reimaginar um futuro melhor para o trabalho em um mundo cocriado com a inteligência artificial.
Com mais de 600 sessões, o SXSW teve conferências para todas as preferências. Artistas como Jane Fonda, Bob Odenkirk e Jamie Lee Curtis foram atrações à parte. Atriz vencedora do Oscar, Jamie, por exemplo, destacou a importância do caráter humano das relações, enquanto Odenkirk ressaltou que as histórias continuarão sendo contadas pelas pessoas.
Mais uma vez, os brasileiros marcaram presença. A SP House, hub de networking do governo de São Paulo instalado em Austin, teve recorde de participação, com 31 mil visitantes, frente a 15 mil em 2025, representando um crescimento de 107%. Além de shows e ativações, a casa foi palco de diversos painéis.
A Globo realizou três painéis na Casa São Paulo. Levou a Austin nomes como Pedro Bial, que comandou uma edição especial do ‘Conversa com Bial’ sobre como a tecnologia influencia a construção de narrativas, enquanto a cultura brasileira foi o tema do painel do jornalista Nilson Klava. A emissora também apresentou durante o SXSW a pesquisa ‘Cultura no espelho: como brasileiros enxergam e vivem a cultura brasileira’.
A Hands.ag, patrocinadora máster da cobertura do propmark no SXSW, promoveu pelo terceiro ano consecutivo o TakeOff na SP House, com um debate entre quatro CMOs do mercado brasileiro. A partir das tendências identificadas no festival, a Hands apresenta à indústria dez diretrizes para o marketing em 2026. Confira matéria sobre o relatório nesta edição.
Frase: “Precisamos um do outro. IA não se importa com você. Não é real” (Jamie Lee Curtis, durante sua apresentação no SXSW).
Armando Ferrentini é jornalista responsável pelo propmark