Se tudo fosse possível, o que você construiria?

Fabio Bottura, Co-CEO do Grupo Vati

Mergulhei em inteligência artificial pela primeira vez em 2014, ao me certificar no curso inaugural de Machine Learning de Stanford, do Andrew Ng, no Coursera. Vindo da criação e migrando para a tecnologia, encontrei ali um campo que unia imaginação e engenharia. O entusiasmo foi tanto que arrastei uma dúzia de amigos para estudar junto.

A partir daí, a IA virou assunto constante nas mesas de bar e de reunião. Em 2016 apresentei no Festival Path uma das poucas palestras sobre o tema. Um dos destaques foi um vídeo mostrando uma rede neural treinada com dados de ZIP codes americanos, capaz de gerar dígitos escritos à mão, um embrião da IA generativa que vemos hoje. O salto que demos em tão pouco tempo é fascinante e, ao mesmo tempo, um tantinho inquietante.

Ao olhar para essa evolução, é crucial separar duas narrativas: a potencial bolha de valorização das big techs guiada pelo playbook de Wall Street e o potencial transformador da tecnologia. Uma fala de equilíbrio de contas; a outra, de possibilidades. E possibilidades existem muitas. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja o que podemos construir, mas o que queremos construir. E é possível que a resposta não coincida com o que estamos, de fato, construindo.

Do ponto de vista humano e social, dois sinais me chamam atenção. O primeiro é o avanço no uso de IA para suprir necessidades emocionais. Um estudo recente da Harvard Business Review mostra “Therapy and Companionship” como o principal caso de uso entre os participantes. No mesmo sentido, Scott Galloway, em Love Algorithmically, destaca o crescimento consistente do uso de plataformas de relacionamento entre seres humanos e IAs em seus diversos formatos. A tecnologia encontrou mais uma brecha para hackear nossa necessidade de conexão.

O segundo sinal é a deterioração da qualidade do conteúdo nas redes. A discussão sobre a “internet morta”, reacendida por figuras como Sam Altman e Alexis Ohanian, reflete um incômodo crescente: conteúdos derivados passam a soterrar o original, enquanto o volume de tráfego gerado por bots acelera. Segundo a empresa de cibersegurança Imperva, em 2025, bots já representam 51% do tráfego global, sendo 37% composto de bots maliciosos.

No campo dos negócios, especialmente na publicidade, ainda falta consenso sobre o papel da IA na indústria. Para além das assimetrias de conhecimento e dos conflitos entre desejo e realidade, muitas divergências derivam das diferentes maturidades entre marcas, agências e estruturas. Revoluções tecnológicas tendem a acentuar distâncias, já que a capacidade de resposta das empresas varia enormemente. Foi assim no início da internet e agora ocorre de forma exponencial com a inteligência artificial. É quase uma pirâmide de Maslow das necessidades digitais.

Se estivermos atentos, usaremos a IA para realizar as ideias que importam. Aliviar as mãos das tarefas que nos diminuem, para que a cabeça e o coração trabalhem no que importa. Não máquinas melhores, mas seres humanos mais completos. Este é um convite para vivermos este momento com mais intenção. Entre todos esses pontos de vista, algo permanece comum: se quisermos colher os benefícios da IA enquanto mitigamos seus riscos, precisamos elevar o nível da discussão.

Menos foco no como. Mais foco no porquê.

Imagem do Topo: Divulgação