Pesquisa revela crise de identidade e falta de regulação no mercado de influência

Relatório da Reglab e Redes Cordiais mostra crise no setor, apesar de mais de 75% dos consumidores já terem comprado por recomendação de influenciadores no Brasil

Criadores de conteúdo digitais no Brasil enfrentam uma combinação de crise de identidade profissional, fragilidades nas relações de trabalho e impactos diretos na saúde mental — em um mercado que movimenta mais de R$ 20 bilhões por ano, mas ainda carece de regras claras e reconhecimento institucional. É o que aponta a pesquisa inédita ‘Vozes da Influência’, conduzida pelo Reglab em parceria com o Redes Cordiais. O estudo ouviu 24 criadores e revela que, apesar da relevância econômica e social do setor, a atividade ainda opera em um ambiente marcado por incertezas. Um dos dados que evidenciam o peso desse ecossistema é que mais de 75% dos consumidores brasileiros já compraram produtos a partir da recomendação de influenciadores.

Um dos principais achados é a rejeição ao termo ‘influenciador’. Os profissionais preferem se definir como ‘criadores de conteúdo’ ou ‘comunicadores’, em uma tentativa de se distanciar de estigmas ligados à superficialidade e à publicidade indiscriminada. Essa disputa por nomenclatura impacta diretamente a credibilidade com a audiência e o posicionamento no mercado, além de dificultar a consolidação de parâmetros de profissionalização.

Além disso, apesar do volume bilionário, o setor ainda é descrito como pouco estruturado. A publicidade é a principal fonte de renda, mas vem acompanhada de problemas recorrentes, como negociações pouco transparentes e prazos de pagamento extensos.  A pesquisa também destaca a dependência das plataformas digitais, vistas como essenciais, mas com baixo nível de transparência e suporte limitado aos criadores. Esse cenário ocorre em paralelo a um aumento da pressão regulatória: entre 2015 e 2025, foram apresentados 88 projetos de lei no Congresso Nacional relacionados ao tema, com aceleração a partir de 2024.

Outro ponto central do levantamento é o impacto da exposição constante. A lógica de engajamento das plataformas exige produção contínua de conteúdo, sob risco de perda de relevância. Além disso, os criadores enfrentam ambientes digitais marcados por toxicidade e discursos de ódio, o que intensifica o desgaste emocional.

Mas apesar dos desafios, o estudo identifica um movimento de profissionalização. Criadores relatam preocupação crescente com checagem de informações, transparência e responsabilidade social. A admissão de erros e a correção pública também aparecem como práticas relevantes para manter a confiança da audiência, ainda que o alcance dessas correções nem sempre acompanhe o das publicações originais. O levantamento aponta ainda que a criação de conteúdo se consolidou como uma das carreiras mais desejadas entre jovens brasileiros, associada à possibilidade de ascensão social, visibilidade e autonomia. No entanto, essa atratividade convive com uma realidade de instabilidade financeira e dependência de algoritmos, evidenciando os riscos da atividade.

O estudo ouviu 24 criadores e revela que, apesar da relevância econômica e social do setor, a atividade ainda opera em um ambiente marcado por incertezas (Imagem: Freepik)

Setor pede regulação e reconhecimento

Diante desse cenário, os criadores defendem maior organização institucional, com parâmetros contratuais mínimos, mais transparência nas relações comerciais e formalização jurídica da atividade. A pesquisa conclui que a escuta desses profissionais é fundamental para o avanço de propostas de regulação e para a construção de um Código de Ética que reflita os dilemas reais do setor — hoje um dos principais mediadores de consumo, informação e opinião no país.

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