“Precisamos de narrativas maiores”

 

Felipe Vellasco, conhecido como Vellas, foi o diretor de cena do filme brasileiro mais premiado no Cannes Lions do ano passado. A peça “Alma”, da F/Nazca S&S para a Leica, com produção da Sentimental Filmes, onde é diretor, levou quatro Leões em Film Craft, um em Film, além de arrematar dois Lápis no D&AD em 2013. Neste ano, o diretor volta ao festival como o jurado brasileiro na área de Film Craft. Em abril, Vellas já havia participado de júri homônimo do D&AD, o prestigiado evento inglês. Nesta entrevista ao propmark, o profissional fala da produção brasileira e da contribuição do diretor para um bom filme. “Lá fora, como não há a escravidão dos 30 segundos, eles se permitem fazer histórias maiores”, diz.

Trajetória
“Eu comecei em agências, na Ogilvy, em 2002. Ainda em agência, passei a me interessar por flash e a fazer alguns trabalhos de animação. Pedi demissão e fui fazer um freela na Vetor Zero e fiquei lá por três meses trabalhando com animação. Era final de ano, tivemos férias coletivas e, quando voltamos, fui fazer um outro freela, dessa vez na Ioiô Filmes, onde fui contratado como diretor de animação. Comecei a acompanhar os processos de diretores que filmavam bastante, até que um dia filmei no VMB, da MTV, em 2008. Comecei a fazer mais coisas, dirigi trabalhos pequenos e vim para a Sentimental. Aqui, fiz alguns trabalhos para Ford, Skol e depois dirigi ‘Alma’, para Leica, e tenho filmado cada vez mais. Essa produção me ajudou a dar um salto nos roteiros com os quais tenho trabalhado. Estou envolvido em filmes maiores agora.”

Sucesso de “Alma”
“Foi uma conjunção de fatores. Esse é um filme que bateu bem porque tinha linguagem estética fora do convencional da propaganda, era preto e branco, embora tivesse um conceito publicitário muito bem amarrado na história. O filme já vinha de um histórico de premiações, teve destaque no Clio, New York Festivals, D&AD e, quando ganha neste último, a peça chega muito mais forte em Cannes. É meio incoerente ganhar D&AD e não levar nada em Cannes. Isso tudo somado, com uma grande dose de sorte, deu o resultado que tivemos no ano passado.”

O P&B de “Alma”
“Sou amigo do João Linneu (então head of art da F/Nazca S&S) e, quando começamos a conversar, minha ideia era filmar em preto e branco. Também tinha uma ideia de fazê-lo desenquadrado, uma narrativa a partir da perspectiva da câmera. Com o Faccioli (André Faccioli, diretor de fotografia), fomos definindo isso, se iríamos assumir tal perspectiva o tempo todo ou se iríamos mentir em alguns planos para ficar mais bonito. Optamos por manter, o tempo todo, a história a partir da visão da câmera, com o cuidado de fazer um filme bonito. Decidimos granular bastante o preto e branco, tentando deixar uma estética de fotografia dos anos 40, um P&B meio emplastado e sujo, como se fossem fotos de guerra. Foi um processo colaborativo, entre criação, direção e fotografia.”

Narrativas maiores
“No mercado internacional, há muitos filmes grandiosos, onde as produtoras acabam sendo mais exigidas, assim como os diretores. Já no Brasil, a grande maioria dos roteiros publicitários é de filmes de esquetes de humor, coisas rapidinhas, e isso não exige uma grande produção. Lá fora, como não há a escravidão dos 30 segundos, eles se permitem fazer histórias maiores. A propaganda vira quase um curta. Isso permite que o mercado de produção se desenvolva mais. Ao mesmo tempo, temos grandes diretores no Brasil, capazes de fazer filmes grandes como os realizados pelos profissionais estrangeiros. Só que não temos uma cultura assim, ficamos muito amarrados numa narrativa de 30 segundos. Mas isso está mudando. Vejo mais filmes longos produzidos tanto por brasileiros quanto por diretores internacionais que vêm filmar no Brasil, um reflexo da aposta que algumas marcas têm feito em formatos maiores. Agora é praticamente default ter um filme de 30 segundos para a TV e uma versão estendida para a internet. É crescente o uso de uma linguagem mais cinematográfica nos filmes aqui dentro. Mas as produtoras precisam das agências, que precisam dos clientes, para fazer projetos mais grandiosos.”

Experiência no D&AD
“Não vi uma peça de 30 segundos no júri de Film Craft do D&AD. Todos os filmes tinham pelo menos um minuto. Não há exceção. Não vi uma peça curtinha, rápida, de humor. Todas tinham uma história. Havia poucas inscrições brasileiras em Craft, predominaram os trabalhos do Reino Unido e dos Estados Unidos, com espaço para alguns outros países, como França e Japão. Devo ter visto uns cinco filmes do Brasil.”

“Filmes para Cannes”
“Os brasileiros tendem a produzir para Cannes, mas esse é um posicionamento errado. É o oposto do que fizemos com ‘Alma’, para Leica. Ela foi lançada em janeiro de 2013 e pôde ser inscrita em várias premiações. Cannes foi o último festival relevante do qual o filme estava participando e, quando a peça chegou, estava forte pelos prêmios que havia conquistado. Se uma produção mira primeiro Cannes e não conquista nada, é muito improvável que ela vá ser reconhecida em alguma outra premiação. Outra questão é fazer peças reais. Ninguém gosta de trabalhar com algo em que não acredita. Se o objetivo é ganhar prêmios, que as agências tentem vender ideias reais para os clientes.”

Brasil x América Latina
“Comparado com as produções da América Latina, o Brasil se sobressai fortemente. Os argentinos têm uma estética própria, têm atores muito bons e roteiros mais audaciosos, mas têm menos dinheiro. Então, os diretores precisam se virar, o que resulta em muito plano esperto, muita composição, bastante chroma key. Eles têm nomes fortes, como Agustín Mendilaharzu, mas a maioria dos filmes carrega uma estética muito peculiar, que é deles.”

Plano de filmagem
“Participo de bastantes concorrências internacionais e há coisas boas e ruins. A parte boa é que a produção é superorganizada, há um planejamento gigante. Mas, ao mesmo tempo, isso pode tornar o trabalho chato pela enorme burocracia. São muitas ligações, há muitas pessoas para decidir detalhes tão pequenos quanto o figurino de uma personagem secundária. Então, é tudo muito engessado. Se você quiser fazer um plano extra é difícil. Mas, ao mesmo tempo, tudo está definido previamente. Se um plano aprovado inclui um helicóptero explodindo e caindo no mar, esse plano vai ser feito. O plano de filmagem é sagrado para eles. Nos Estados Unidos, o diretor vai, filma e se despede do projeto. É outra equipe que monta e é por isso que o plano de filmagem é tão importante. Apesar de ser estranho pensar que o diretor não vai acompanhar o trabalho até o fim, as agências chamam equipes de montagem premiadas no Grammy, fazem pós-produção com a The Mill, que está envolvida em 90% das grandes produções. Mas eu acho esquisito.”

Falta de planejamento
“O problema para nós é a falta de planejamento. Parece que descobrimos que vai ter Copa do Mundo em março e todo mundo está fazendo filmes desesperadamente para soltar antes de junho. Não dá para entender. E com as Olimpíadas será a mesma coisa. Por isso que os diretores estrangeiros sofrem quando vêm filmar no Brasil. As agências acham que chamar um diretor de fora vai resultar em grandes filmes, mas não rola, porque a forma de trabalho aqui é muito diferente. Não adianta trazer um ótimo profissional de fora que está acostumado a projetos de três meses para filmar em três semanas aqui. O deslumbre com diretor gringo no Brasil é uma bobagem.”

Pressão do tempo
“Tivemos uma boa dose de tempo para fazer ‘Alma’. O processo para o filme de Leica, da chegada do roteiro à entrega das cópias, levou dois meses e meio. Esse filme era para a internet, então não havia a pressão da mídia comprada, que é outra peculiaridade do Brasil – a mídia está alocada antes de você fazer o filme, o que gera pressão, porque a agência não pode perder a inserção. Temos filmes que monto em um dia. E isso é muito pesado. Às vezes levamos o montador para o set. Ter duas semanas para filmar uma peça gigantesca é cruel. Aí o filme fica ruim e a culpa recai sobre o diretor. Mas o processo atrapalha.”

Estética batida
“Temos uma estética brasileira muito baseada na novela, que é algo irritante. Tudo precisa estar explodindo em cor, tudo precisa estar em foco, as pessoas devem estar sempre sorrindo, felizes, maquiadas. E isso é uma grande bobagem. O bizarro é que, quando você solta um filme diferente disso, as pessoas adoram. Fizemos um filme para Fiat no ano passado, o ‘Vem pra rua’, que tem gente de verdade: pessoas descabeladas, sem maquiagem, suadas. Acabei de voltar de Manaus, mas não fui lá filmar o Rio Negro e suas belezas naturais, e sim as pessoas reais.”

Contribuição do diretor
“Os diretores são divididos por segmentos. Há beleza, moda, carros, etc. Eu tenho feito bastante filme de carro e não saberia fazer uma peça de beleza, por exemplo. Eu sofreria, a agência sofreria, não seria bom para ninguém. No segmento que estou produzindo mais agora, minha busca é fazer filmes de carro que não se pareçam com filmes de carro. Tenho evitado aquela fórmula dos 90 quadros, a lambida clássica do painel, o automóvel sob uma luz maravilhosa. Tento deixar uma linguagem mais naturalista ou mais cinematográfica de alguma forma. Com o Cinquencento (Fiat), por exemplo, a preocupação não era tanto com a luz perfeita sobre o carro, mas na emoção em dirigi-lo, em estar nele. Já no filme ‘Fim do Mundo’, com a JWT para a Ford, a preocupação foi mais com a cinematografia. Não sou pioneiro nisso, há outras pessoas trabalhando dessa forma, que é uma maneira de trabalhar uma estética diferente, menos novela. E as pessoas entendem essa busca. Os roteiros que chegam para mim são de quem está interessado em fazer filmes com essa pegada menos posada, mais documental.”

Preparação
“Já temos um grupo dos jurados no Whatsapp e no Gmail. As pessoas estão querendo ver as peças, mas estou sem tempo e ainda não consegui olhar nada. Imagino que em Cannes haverá aquela coisa de diretor puxando sardinha para o seu país ou para uma peça que ele filmou, o que acho meio chato, porque precisa ser premiado o que é bom. Não creio que o Brasil inscreva bastante em Film Craft, vejo que as agências do país apostam mais em outras áreas. Geralmente, quando inscrevem, o trabalho é diferente e bom mesmo. Eu já imagino o que vai ter do país, mas vamos ver o que vem.”