Redes sociais, fake news, WhatsApp e pesquisas marcaram as eleições

O crescente papel das redes sociais, a enxurrada de fake news que tomou conta dos meios digitais, a força do WhatsApp e a volatilidade e a indecisão em relação aos votos por parte do eleitorado marcaram o processo eleitoral pelo qual o Brasil acaba de passar, cuja intensidade emocional deixou uma ressaca sem precedentes. No meio das discussões e balanços, está também o papel das tradicionais pesquisas eleitorais, baseadas, essencialmente, nas perguntas cara a cara. Para muitos elas podem parecer tradicionais ou simplistas demais, se forem levadas em conta as novas metodologias existentes e tantas informações circulando ao mesmo tempo, a tanta velocidade. Até que ponto os retratos estanques de momentos que dali a dias podem já não valer mais, funcionam ou fazem sentido?

Luís Paulo Montenegro, vice-presidente do Ibope, fala que as pesquisas eleitorais seguem metodologias utilizadas há muito tempo, no mundo inteiro. E chama a atenção para o fato de que não houve grandes disparidades nos resultados. No caso da eleição para presidente, por exemplo, as pesquisas apontaram a liderança do candidato Jair Bolsonaro desde o início do ano.

Disparidades maiores houve em algumas eleições para governador, como Rio de Janeiro e Minas Gerais, onde os candidatos vencedores, ambos, declararam apoio a Bolsonaro uma semana antes da eleição e assim se beneficiaram.

“Creio que a imprensa e os demais candidatos não levaram a sério, num primeiro momento, o que as pesquisas indicaram. E é preciso lembrar que as pesquisas de boca de urna conseguiram captar com grande precisão todas as mudanças que houve no dia das eleições”, observa Montenegro. Desta vez, houve maior indecisão por parte do eleitor – fruto de um processo controverso, com acontecimentos inesperados como o ataque a Bolsonaro em Juiz de Fora (MG), em setembro, somada a uma enorme insatisfação geral com a classe política.

Previsão
Márcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência, explica que a pesquisa não tem o papel de prever o futuro, ela apenas diagnostica o que está ocorrendo naquele momento. “Não mudamos absolutamente nada nos nossos processos. Pesquisa não é exata, não é infalível. Elas têm uma margem de erro amostral associada porque não estamos entrevistando todo o universo”, observou. Segundo ela, a única metodologia que consegue acessar os eleitores ainda é face a face, pois as pesquisas realizadas por telefone, internet ou redes sociais têm problema de acesso, pois nem todos os eleitores estão presentes nesses meios. No caso das pesquisas realizadas por URA (Unidade de Resposta Automática) há o problema de autosseleção do entrevistado: responde quem quer, e nem sempre é o suficiente. “O Ibope tem acompanhado os avanços tecnológicos, mas é preciso muita cautela na hora de utilizar metodologias e tecnologias nas pesquisas eleitorais”.

Flavio Ferrari, consultor especializado em métricas de mídia e mentor do hub colaborativo SocialData, fala que as pesquisas clássicas já incorporaram alguns recursos tecnológicos como o uso de tablets, mas que questionários e a forma de abordar os entrevistados poderia ser revista. “A diversidade de acesso no território brasileiro acaba fazendo com que os institutos não utilizem alguns recursos tecnológicos facilitadores, porque não poderiam ser utilizados de forma universal. Mudar a perspectiva poderia reduzir custos e permitir o aumento das amostras, contribuindo para a acuracidade das pesquisas”, comenta. Ele acredita que há transformações importantes ocorrendo na forma de coletar informações e em relação à compreensão do processo de decisão do eleitor. “A sociedade está mais dinâmica e as mudanças aceleradas deixam assuntos por discutir, que podem ter forte influência no processo eleitoral. Um bom exemplo disso foi o fato de as razões que levaram à escolha dos candidatos pelo eleitor tiveram pouca relação com seus planos de governo e as propostas apresentadas”, observa.

Manutenção
Montenegro, do Ibope, não aposta em grandes mudanças no sistema de pesquisas eleitorais. “Acho que todas as técnicas continuarão válidas. A diferença agora é que as pesquisas deverão ser realizadas e divulgadas com maior rapidez para acompanhar um eleitorado cada vez mais irrequieto e volúvel. São características do nosso momento político atual com muitos partidos, fragmentados por todo o país. Mesmo assim, as mudanças de comportamento que são realizadas no dia da eleição só serão detectadas pelas pesquisas de boca de urna. E isso é válido para as eleições no mundo inteiro, não só as do Brasil”, afirma.

Maurício Moura, CEO da Idea Big Data, acredita que o futuro das pesquisas, para além da coleta de dados mais rápida e barata a partir de mais recursos tecnológicos, passa por dois pilares: ouvir mais e perguntar menos. “As perguntas em si já produzem viés. Também não utilizar pesquisadores, acessar diretamente entrevistados. Utilizamos um sistema de crowdsourcing que acessa 800 mil pessoas hoje no Brasil que nos dá muita velocidade e precisão. Esse é o futuro”, acredita.

Guto Graça, diretor do DataScript, afirma que os institutos de pesquisa terão de repensar seu papel, sua missão e negócio – se querem apresentar números e tendências ou se querem se configurar como um grande eleitor que agrega influência. “O que a gente chama de pesquisa? Aquela que vem estampada no jornal como se fosse uma peça publicitária?”, questiona. Graça aposta na soma de ferramentas: que as redes sociais, por exemplo, sejam vistas de forma profissional. “Quem não usar Big Data está perdendo uma oportunidade”.

Televisão
Se por um lado a propaganda eleitoral gratuita sai um pouco desacreditada, isso não parece ter nada a ver com o meio em si, mas muito mais com o formato, que segue antiquado e com conteúdos em muitos casos totalmente fora de contexto e desconectados das expectativas e anseios das pessoas. “O maior problema foi o conteúdo de certos candidatos. O que mudou é a maneira de utilizar o meio. Não podemos responsabilizar o meio pela forma inadequada de ser utilizado. Alguns ‘programas eleitorais’ estavam completamente desconectados dos anseios dos eleitores”, comenta Antonio Jorge Alaby Pinheiro, sócio da Mídia 1 e presidente do Grupo de Mídia do Rio de Janeiro.

A TV cresceu ao proporcionar a possibilidade de aprofundar ideias em entrevistas e debates, e serviu como contraponto interessante ao mar de fake news em que se transformaram as redes sociais. Mas o fato é que os canais se retroalimentaram. No caso da Band, uma parceria com Google Trends e YouTube possibilitou três ações de muito sucesso: a sala digital, um estúdio de debates para os candidatos que analisava em tempo real as reações das pessoas em todo o Brasil; a transmissão ao vivo no canal de jornalismo da Band e no YouTube, batendo recordes de espectadores (390 mil assistindo ao mesmo tempo); e o debate com youtubers influentes realizado no YouTube Space, no Rio de Janeiro. Por sinal, a Band realizou o primeiro debate entre candidatos à Presidência da República dia 9 de agosto, que praticamente abriu a campanha, conforme destaca André Luiz Costa, diretor-executivo de jornalismo da Band.

Segundo ele, o que ficou claro nestas eleições é que, especialmente com o envolvimento maior no ambiente digital, as audiências são complementares. “Analisando os números percebemos claramente como um pode impulsionar o outro”, disse.

Flávio Ferrari fala que seu estudo deixou claro que a mídia formal pauta as redes sociais e define o que será discutido nas redes, influenciando os acontecimentos no espaço social. Segundo ele, no caso da eleição presidencial, Bolsonaro sempre liderou com folga o número de menções nas pautas sobre eleições na mídia formal, compensando seu menor tempo de exposição no primeiro turno. “Na nossa visão, garantir presença nas pautas da mídia formal é a base para uma campanha de sucesso”.