Saudades da Croisette

Metade do Brasil está embarcando para Cannes. A outra metade para a Rússia. Que saudades tenho da aurora de minha vida, da minha agência querida que os anos não trazem mais. Naquele tempo eu também ia a Cannes como quem vai a Praia Grande, com a vantagem de que o camarão de Cannes é melhor.

E, por incrível que pareça, hoje mais barato, desde que não seja na Croisette, que é uma espécie de Oscar Freire da Cote D’Azur, sem mão armada.

Bem, mas o que eu quero contar é um episódio que acalanta minhas lembranças e estende o manto da saudade sobre meu passado. Puta frase! Não quer dizer porra nenhuma, mas faz parte do meu mídia training para quando for em cana. Dizer, sem ficar vermelho, platitudes como “estou colaborando com as autoridades”.

Voltando à lavachefroid, um dia fui convidado para ser jurado no festival. Na categoria rádio, exatamente aquela que exige melhor conhecimento de línguas, principalmente inglês ou francês, já que a maioria das peças é enviada ao festival nessas línguas. E aí é quando l’ ecroutordlaqueue.

Meu inglês é de multinacional, onde todos tentam se fazer entender. E meu francês é tão bom que quando tento falar todo mundo pensa que sou russo.

Mas, numa expressão totalmente coloquial em francês, déjà baisée, baisée et demi. Aceitei.

O Brasil tinha cinco peças inscritas, sendo uma maravilhosa, uma jogada genial tocando algumas músicas em sequência cujas letras lembravam o momento político brasileiro.

O único erro foi que a agência que inscreveu a peça resolveu fazer uma versão em inglês, o que a tornou ininteligível em qualquer língua. As outras eram boas por si, facilitando minha vida.

Mas essa – do jeito que estava – nem no Brasil conseguiria ser compreendida. Na hora do julgamento, conseguimos premiar três delas e a das músicas não passou nem para a short list.

Foi daí que, na repescagem, resolvi defender a peça, que eu julgava ser merecedora de um Leão de ouro, prejudicada apenas pela falta de entendimento por parte dos jurados. E comecei a falar.

Discursei em inglês como um Churchill de porre. Expliquei a situação brasileira, as sutilezas políticas, a ironia finíssima da peça, o senso crítico escondido nas filigranas.

Os jurados – a maioria não nativa em inglês – tentavam me entender. A minoria que dominava a língua ficou em dúvida sobre qual era o idioma que eu estava usando. Mas falei.

Acho que na empolgação comecei pela carta de Pero Vaz de Caminha para que os companheiros entendessem a alma brasileira e a nossa situação política.

Para minha alegria, captaram minha mensagem. Ou, pelo menos meu entusiasmo. E retiraram a peça da lixeira e deram-lhe uma classificação. Justa, por sinal.

O representante da Itália, quase tão monoglota como eu, durante o almoço, chegou a insinuar que eu poderia ajudá-lo quando precisasse se entender com os demais integrantes do júri. O coitado achava que eu tinha sido um verdadeiro Lincoln falando em Gettysburg.

Foi assim que eu descobri uma verdade que vale até hoje na política: o mais importante é como você fala, não o que você fala.

A palavra entusiasmo quer dizer estado de exaltação divina. Isso é o que jamais pode faltar num discurso. Tenho dito.

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor (lulavieira@grupomesa.com.br)

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