propmark 61 anos: Seleção brasileira ainda mobiliza o país? O impacto da torcida nas campanhas

Com um país polarizado e as novas gerações, executivos opinam sobre como a relação do brasileiro com a seleção e a Copa afeta a publicidade

Em um país em que a Copa do Mundo sempre funcionou como catalisador de emoções coletivas, a relação entre o brasileiro e a seleção brasileira passa por um momento de transformação. Se em edições anteriores o time nacional ocupava de forma quase automática o centro do imaginário popular — mobilizando ruas, famílias e marcas em torno de um sentimento de unidade —, hoje o cenário é mais complexo, fragmentado e influenciado por fatores que vão além das quatro linhas.

Resultados esportivos recentes, mudanças no comportamento do consumidor, polarização política e novas dinâmicas sociais alteraram a forma como parte da população se conecta com a equipe nacional. Para o mercado publicitário, essa mudança representa tanto um desafio quanto uma oportunidade.

Para os executivos das agências, é evidente que a relação do público com o evento mudou, mas o evento não, fazendo com que muitos confundam o amor pela seleção com o amor pela Copa. Afinal, o ritual das pessoas continua vivo: assistir ao jogo, juntar amigos e família, fazer churrascos e resenhas.

Para o Brasil, a Copa é uma ocasião cultural, que afeta o emocional do país. E isso se torna uma oportunidade para as marcas, pois reduz a dependência da performance dentro de campo e abre um território cultural muito maior. A marca deixa de jogar só no gramado. E passa a existir na vida que acontece em volta do jogo.

Ao mesmo tempo, parte do público mais jovem se conecta com o futebol de maneira diferente. Ele acompanha clubes internacionais, consome conteúdo de creators, vê jogos em múltiplas plataformas e vive o futebol como cultura digital, meme, moda e lifestyle. A seleção continua sendo relevante, mas divide espaço com outros repertórios.

Um dos fatores que mais mobilizam as agências hoje é a polarização. Nos últimos anos, por exemplo, o uniforme da seleção, que sempre foi um símbolo de união nacional, em determinado momento passou a carregar camadas de significado político. Isso impacta a forma como as pessoas se relacionam com esse símbolo e, consequentemente, como as marcas se aproximam dele.

Analu Santos, vice-presidente de estratégia da Lola\TBWA, fala sobre o tema: “A polarização, que tem sido tão presente na nossa sociedade, está pautando também a nossa relação com a seleção: nunca se esperou tão pouco da seleção brasileira do ponto de vista de resultados. Mas a conversa polarizada não muda o fato de que a Copa do Mundo é o maior evento mobilizador de atenção do mundo”, afirma.

“Aqui, a Copa vai além e permeia o imaginário de todos os brasileiros, independentemente de região, classe social: desde aqueles que podem planejar assistir ao campeonato in loco, aqueles que se organizam para melhorar a infraestrutura de casa para assistir os jogos, aqueles que vão para as ruas tematizar de verde e amarelo suas vizinhanças, aqueles que esperam preencher o álbum de figurinhas, aqueles que querem se vestir de verde e amarelo, aqueles que vão assistir de casa, de bares, da rua etc. São muitas oportunidades de conexão para as marcas e que, necessariamente, geram resultado de negócio”, assegura Analu.

André Gola, ECD da Grey: “A Copa do Mundo é aquele momento em que tudo gira em torno de um único assunto. Por algumas semanas, ela deixa de ser só um evento e passa a ocupar a cabeça de todo mundo. Mesmo quem não gosta de futebol acaba envolvido, seja pelos encontros que os jogos provocam, seja pelas conversas que surgem em qualquer lugar. Com as marcas acontece o mesmo. Até aquelas que não têm relação com o esporte acabam, de alguma forma, fazendo parte desse movimento”.

Para as marcas, isso significa que a associação ao território da seleção precisa ser mais cuidadosa, mais sensível e mais autêntica. Por outro lado, se a conexão está menos em cima da entidade (CBF) e mais na identidade brasileira, Stephanie Campbell, CSO e co managing director da YouDare, traz um insight interessante:

“Não é sobre a paixão incondicional pela seleção brasileira de futebol; é sobre o lifestyle da brasilidade e como futebol se insere nesse contexto em uma celebração coletiva. As marcas que acompanharam esse pensamento pararam de tentar ‘unir o Brasil’ (um desafio político impossível nos dias de hoje) e passaram a celebrar o orgulho de ser brasileiro.”

“O foco saiu do Hino Nacional e foi para o churrasco, a resenha e a estética do Brazilcore, que nasce de uma expressão gringa, mas representa a forma mais raiz de ser brasileiro com ‘S’. A política é um campo minado, focar em comportamentos coletivos é o caminho mais seguro e eficaz”, afirma.

Wilson Negrini, VP de atendimento e novos negócios da Crispin, concorda: “A Copa, na minha percepção, vem se tornando menos sobre a seleção em si e mais sobre o brasileiro, seus rituais e a forma única como vive o futebol. Isso amplia o território de atuação das marcas, mas também aumenta a complexidade, já que estamos falando de um país diverso, com diferentes contextos culturais, regionais e comportamentais. Por isso, mais uma vez, a integração entre estratégia, dados e leitura cultural se torna essencial para interpretar o contexto em tempo real e orientar decisões mais assertivas.”

Leia a íntegra da matéria na edição impressa do dia 18 de maio.