Um estagiário no céu

O tédio é o pior castigo que um homem pode ter. Nestes tempos de coronavírus, mais que lutar contra a eventual contaminação, coisa que minha mulher tem se revelado profissional, luto contra o enfado. Minha casa não é pequena nem são pequenas as tarefas que tenho para cumprir. Mas o simples fato de não poder ir à rua já é pena suficiente para enlouquecer um ser humano. Tenho livros para editar, artigos para escrever, parecer para dar. Mas faz mais de 45 dias que meu mundo se resume à minha casa e seu terreno. Faz 45 dias que não entro num boteco. Não aparece nenhum amigo para almoçar ou jantar. Estou só, como um torcedor da Portuguesa. E semana passada eu prometi a você que ia parar com a choradeira. Não escreveria mais sobre estes tempos impensáveis. Então contarei uma história do passado. Uma do baú. Velha, muito velha, dos tempos da JMM. Mas muito boa. Pois é, naquele tempo nós tínhamos a conta da Líder Taxi Aéreo (A Líder vai lá, lembram-se?). E tínhamos também um pedaço da Fiat, ainda na fase da implantação da fábrica em Betim. Ambas com sede em Belo Horizonte.

Certo dia eu precisei ir a Minas apresentar à Fiat um folheto que mostrava o impacto econômico da chegada da montadora no estado. Ao mesmo tempo, um boy da JMM (naquela época existiam office-boys, que os mais novos nem sabem para que serviam. Hoje o boy se chama motoqueiro). Eu dizia que um boy foi encarregado de levar na Líder um material qualquer, coisa de rotina, para ser entregue no aeroporto, colocado no malote e enviado à sede em Belo Horizonte. A criação, como de hábito, atrasou um pouquinho e, para não perder a hora da entrega da campanha, o dono da agência, João Moacir de Medeiros, acabou aceitando a ideia de que alugássemos um jatinho para que eu fosse apresentar a tempo o material da Fiat. Doeu-lhe como um parto, mas não tinha outro remédio. Enquanto isso, o tal boy que ia levar o material na Líder teve um problema qualquer e acharam um estagiário da criação para dar um pulinho no hangar da Líder no Santos Dumont e despachar a correspondência. Coisa tão primária que ninguém se preocupou em ficar explicando os detalhes da missão. Alguém disse ao estagiário: “vai para o aeroporto e manda entregar esta merda em Belo Horizonte. Vai a jato!” Ao mesmo tempo (olha o destino tecendo das suas), minha secretária (onde andará a Beth?) reservou um jatinho, também na Líder, para me levar a BH com todas as honras de cliente VIP, parceiro de negócios e – porra – diretor de criação da gloriosa JMM. Daí deu-se a merda. O pistoleta (era uma expressão de época introduzida no vocabulário pelo glorioso Geraldo Alonso) do estagiário chegou no hangar da Líder meia hora antes do horário reservado para mim e se apresentou: “eu sou da JMM!” Não deram tempo para ele respirar. Levaram-no para um jatinho já com as turbinas quentinhas e decolaram. E lá foi o estagiário deslumbrado, comendo empadinhas e bebendo whisky escocês, na primeira viagem de avião da sua vida. Mal o infeliz aterrou em Pampulha, cheguei na Líder do Rio.

Nem olharam para mim. Mandaram eu deixar o envelope na caixa e obrigado. Depois de meia dúzia de palavrões consegui desfazer o engano. O puto do estagiário já estava em BH reclamando que a água Perrier que serviram a bordo não era com gás. Em compensação a reunião dos italianos da Fiat já começava e eu estava no Rio. Um dos diretores chegou a ficar tão puto que disse que o Brasil era uma esculhambação. Segundo ele próprio, igual à Itália. Conclusão: meia hora depois dois jatinhos se cruzaram nos céus. Um levando um gordo à beira de um infarto, bebendo Logan pelo gargalo para não morrer, outro trazendo um estagiário de volta ao Rio sabendo que lá em baixo a dura rotina o esperava. Diz a lenda que o sacana, como não tinha pedido a ninguém para ser transportado com toda mordomia, ainda ofereceu carona a duas moças que vieram visitar umas primas em Copacabana. Sem a menor culpa, o cara, além da mordomia de praxe, exigiu champanhe a bordo, não prevista no contrato, coisa que o Medeiros se recusou a pagar. E que significou uns bons três meses de salário do rapaz. Um dia eu estava trabalhando e o tal estagiário, hoje um profissional de sucesso, chegou e me confidenciou: “sabe aquelas moças que eu dei carona no jatinho? Elas me ligaram no dia seguinte, me convidando para sair. Fui de ônibus e levei elas pro Bob’s. Nunca mais me ligaram…” concluiu filosoficamente. E acrescentou, olhando a fumaça do cigarro: “tudo gente interesseira”. Outro dia ele me disse que achava estágio uma coisa importantíssima não só para aprender a profissão, mas para conhecer a vida. Sábias palavras.

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor (lulavieira.luvi@gmail.com)