Ampliar o horizonte

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Por Lili Fialho é diretora de cena da MyMama Entertainment

Quando penso em inspiração, penso menos em uma referência específica e mais na minha trajetória de vida. Acredito que tudo o que a gente vive, observa, escuta e atravessa entra no nosso trabalho de alguma forma. Às vezes, de maneira direta. Outras vezes, de um jeito mais subjetivo, quase invisível. Mas está ali: na escolha de uma imagem, no ritmo de uma cena, na aproximação com uma personagem, na forma como uma ideia começa a ganhar corpo.

Venho de uma origem caiçara, de uma relação muito próxima com a natureza e com um mundo que ainda era bastante analógico. Cresci no sertão de Camburi, litoral norte de São Paulo, cercada de mata, mar, rio, bichos e silêncio. Acredito que essa convivência me deu outra relação com o tempo. A natureza me ensinou algo que carrego até hoje: o olhar demora. Antes de enquadrar, é preciso prestar atenção. Antes de transformar algo em imagem, é preciso entender seu tempo.

Essa relação com a floresta continua sendo uma fonte muito importante de inspiração para mim. Ela me inspira pela sua magnitude, claro, mas também pela sua complexidade: pela maneira como uma paisagem muda com a luz, como a fauna se movimenta, como as cores aparecem e desaparecem, como o horizonte reposiciona o nosso olhar. Há muitos anos fotografo pássaros, e essa paixão entra nesse mesmo lugar. Ela me reconecta com um ritmo mais silencioso, mais atento, menos imediato, e alimenta também minha forma de observar e ouvir o mundo.

Talvez por isso eu tenha me aproximado tanto de narrativas que pedem escuta. Sempre fui movida por contar histórias, mas, ao longo de minha trajetória, entendi que algumas delas foram retiradas de nossas memórias de forma muito concreta, principalmente as femininas.

Interessa-me olhar para esse apagamento e participar efetivamente da reconstrução da nossa memória. Vejo isso como algo urgente e extremamente inspirador.

No futebol feminino, encontrei um território muito forte dessa busca. Para mim, filmar essas trajetórias é uma possibilidade de jogar luz sobre histórias que ficaram à margem, de escutar quem viveu essas experiências e de recontá-las com a dignidade que elas merecem. Esse pensamento atravessa diferentes formatos do meu trabalho, pois não vejo publicidade, conteúdo, ficção e documentário como áreas separadas por muros. Todas podem ser alimentadas por uma mesma inquietação: encontrar uma forma viva de contar uma história.

Acho que a inspiração fica mais potente quando a gente não tenta caber dentro de uma caixa. O mercado muitas vezes gosta de definir rápido, mas acredito que uma linguagem própria nasce justamente quando a gente cruza repertórios. A fotografia de pássaros, a observação da cidade, os movimentos sociais, os encontros com personagens reais, os sets, as conversas e as trocas com outras mulheres ampliam minha forma de criar.

Para propor uma linguagem diferente, a gente precisa beber de fontes diferentes. Sair do óbvio, desafiar automatismos, olhar para além das etiquetas que muitas vezes colocam na gente. A inspiração pode vir de um filme, de uma cor vista na mata, de uma fala escutada na rua, de uma manifestação popular, de uma mulher que conta sua história, de uma equipe que pensa junto. Tudo isso é matéria de criação.

Também acredito muito no audiovisual como arte coletiva. Um filme nunca nasce de uma pessoa só. Ele nasce da soma de muitas inteligências, sensibilidades e experiências. Por isso, estar cercada de mulheres, trocar com diretoras, artistas, amigas e parceiras de trabalho é algo que me inspira profundamente. Historicamente, fomos ensinadas a olhar umas para as outras pela lógica da comparação e da disputa. Eu acredito no caminho contrário: na soma, na escuta e na potência que nasce quando mulheres se fortalecem.

No fim, para mim, inspiração tem a ver com ampliar o horizonte. Com não se limitar a uma única fonte, uma única referência, uma única definição. Quanto mais a gente reconhece a própria bagagem, mais possibilidades encontra para criar. Talvez seja esse o exercício que mais me interessa hoje: seguir misturando origem, memória, natureza, escuta, encontro e trabalho coletivo para construir uma linguagem que não se fecha em uma etiqueta.

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