Por Peck Mecenas, CEO e fundador da Peck
Sempre achei curioso como a gente naturaliza certas lógicas sem perceber.
No Rio de Janeiro, por exemplo, existe um roteiro quase automático: o verão concentra tudo. É quando a cidade atinge seu pico, quando os grandes eventos acontecem, as marcas investem e o público se mobiliza. Esse modelo começa a mudar quando olhamos para o peso da economia criativa. Hoje, o setor representa mais de 3,5% do PIB brasileiro e segue em expansão. No Rio, esse impacto é ainda mais visível quando cultura, turismo e entretenimento passam a operar de forma integrada.
Quem trabalha com música sabe que isso fica evidente na prática. As pessoas não deixam de querer viver experiências quando a temperatura cai. A energia continua ali. Às vezes, o que falta não é demanda, é alguém disposto a puxar o movimento e a quebrar paradigmas.
Comecei no show business aos 16 anos, na estrada com o Barão Vermelho e, na sequência, entrei na nave Circo Voador, em 1992, aos 17 anos. Observando mais do que falando, acompanhando turnês, entendendo bastidores, vendo o que funcionava, e, principalmente, o que não funcionava. Muito antes de pensar em estrutura ou escala, eu pensava em gente. Em por que alguém decide sair de casa para viver aquilo.
Foi dessa inquietação natural que nasceu uma pergunta que mudou todo o rumo da história: e se o inverno pudesse ser uma estação tão quente quanto o verão?
Na época, parecia um contrassenso. Mas, olhando de perto, fazia sentido. Existia uma cidade inteira com infraestrutura, público, artistas e potencial, e um vazio de agenda cultural consistente durante meses. A rede hoteleira também sentia isso. A decisão de criar o Festival de Inverno Rio não veio de uma planilha. Veio de percepção. De enxergar oportunidade onde, até então, só se via ausência.
No começo, não foi tão simples. Construir um festival é insistir em uma idéia quando ainda não existe referência. E, nesse momento, a resistência fala mais alto e a gente segue adiante, cercado de colaboradores que também acreditam na idéia.
E o público respondeu. Porque essa vontade já existia, só não estava sendo atendida. As marcas também entenderam esse movimento. E isso fez toda a diferença. Ao longo do tempo, passaram a não apenas viabilizar, mas sustentar os projetos, permitindo que ganhassem continuidade, algo raro em um mercado que muitas vezes opera no curto prazo.
Hoje, o festival chega à sua nona edição ocupando um espaço real no calendário cultural da cidade. Gera cerca de 3.400 empregos diretos e indiretos, movimenta a Marina da Glória e deve reunir mais de 60 mil pessoas nesta edição.
Mais do que os números, o que me marca é outra coisa: ver o inverno do Rio ganhar vida. Ver artistas como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Alcione, Frejat, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Alceu Valença e Liniker, ocupando a cidade ao lado de um público que, anos atrás, não tinha onde viver esse tipo de experiência.
Esse mesmo olhar acabou guiando o que veio depois. O festival Clássicos do Brasil, o 90’s Festival e outros projetos nasceram dessa lógica: primeiro entender o comportamento das pessoas, depois definir o formato.
Mais recentemente, a PECK deu um novo passo ao entrar no mercado de turnês nacionais. É um movimento natural. Se antes criávamos destinos, agora também levamos essas experiências para diferentes cidades.
Mas a essência continua a mesma.
Sigo acreditando que a música ainda é uma das formas mais potentes de encontro. O que acontece ali, entre desconhecidos, no meio de uma multidão, não se replica em nenhuma outra plataforma. E o mercado, no fim das contas, não se move só por tendência. Se move por decisão. Talvez por isso eu nunca tenha acreditado muito em “temporadas”.
Para quem vive de música e cultura, todo tempo pode ser o tempo certo, desde que alguém esteja disposto a fazer acontecer.



