Por Alexis Thuller Pagliarini, sócio-fundador da ESG4
O Cannes Lions 2026 chega, como sempre, com um rico conteúdo, apresentado por aproximadamente 500 palestrantes, em 150 horas de palestras, workshops e debates. E vem com uma proposta clara: ir além da celebração do talento criativo e se firmar como espaço de reflexão estratégica sobre para onde a indústria está indo. Com programação dividida em seis trilhas temáticas, o Festival este ano aposta em formatos mais participativos.
Dois temas transversais permeiam toda a programação: o impacto crescente da inteligência artificial sobre a criatividade e a questão da responsabilidade — como marcas, líderes e plataformas usam sua influência. A tensão entre inovação tecnológica e valores humanos é o fio condutor que liga palestras aparentemente díspares, de Demis Hassabis, do Google DeepMind, a Stella McCartney e Patagonia. O Cannes Lions Deconstructed, também estreante, propõe um encerramento inédito: uma síntese ao vivo das tendências e aprendizados da semana, entregue no próprio palco do Palais, antes mesmo da publicação do relatório oficial, o que certamente vai facilitar a vida do articulista aqui, que todo ano faz um resumo do melhor de Cannes e apresenta no Cannes Lions Roadshow.
O destaque maior será Oprah Winfrey, que recebe o LionHeart 2026, pelo uso responsável de sua influência ao longo de décadas. Sua palestra promete ser a mais assistida da edição. Entre as seis trilhas, a mais provocadora do Festival é a Insights & Trends. A participação de Alex Weller, da Patagonia, promete ir fundo numa das questões mais desconfortáveis do marketing contemporâneo: é possível crescer sem trair os próprios valores? A Patagonia é uma das poucas marcas globais que transformaram posicionamento ético em estratégia de negócio, então a resposta que Weller trouxer daqui pode reorientar como agências e anunciantes pensam crescimento.
A dupla Jamie Iannone (eBay) e Stella McCartney complementa este raciocínio ao discutir o comércio circular — a lógica de revenda, reutilização e reciclagem que está mudando a cadeia criativa de moda e produtos de consumo. Outra trilha é a Innovation Unwrapped, que vai trazer o tema ‘IA em carne e osso’. O grande nome é Demis Hassabis, CEO do Google DeepMind — um dos pesquisadores de IA mais influentes do planeta. Sua conversa sobre o futuro da criatividade é uma das mais aguardadas do calendário.
Mas a trilha vai além do nome de peso: Aude Gandon (Estée Lauder) e Nicola Mendelsohn (Meta) trazem a perspectiva de quem já usa IA como ferramenta operacional de marketing — não como promessa futura, mas como realidade presente. Temos também a trilha The Creativity Toolbox com o debate organizado pela Campaign com quatro líderes criativos de gerações e filosofias diferentes: David Kolbusz (Orchard Creative), Lynsey Atkin (Baby Teeth), Richard Brim (Ace of Hearts) e Chaka Sobhani (TBWA\Worldwide).
A Talent & Culture é a trilha com a proposta mais inclusiva do Festival. As mesas-redondas globais com líderes de redes independentes da Ásia e da América Latina — como Adams Fan (F5 Shanghai), Trevor Robinson (Quiet Storm) e Joana Mendes (Jungle Kid) — representam uma abertura real do Cannes Lions para geografias e perspectivas que historicamente não tinham voz no evento. E para fechar, temos a Creative Impact — De volta ao básico, mas com novos olhos. A presença de Mark Ritson (Mini-
MBA) e Byron Sharp (Ehrenberg-Bass Institute) nesta trilha é um sinal claro: depois de anos de ebulição em torno de novas tecnologias e plataformas, o Festival quer voltar a discutir os fundamentos do marketing que efetivamente geram resultado.
As “cinco verdades fundamentais do marketing” que eles apresentarão prometem ser uma das sessões mais compartilhadas e debatidas na semana. O time do propmark terá muito trabalho para filtrar todo esse conteúdo e trazer o melhor para os leitores. E eu prometo dividir a minha visão por aqui e no Cannes Lions Roadshow.



