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Inspiração é uma palavra que pode ser entendida de duas maneiras. Uma é a inspiração do tipo lampejo de ideia, um pensamento incrível e brilhante que vem de repente – você está lá quieto, olhando pro nada e, pimba! Vem uma inspiração.

A outra é uma coisa ou uma pessoa que inspira, que faz você pensar “puxa, eu queria ter feito isso”. Essa inspiração, às vezes, vem até em forma de raivinha, daquela moderada, que faz você dar um soco leve na mesa e dizer “putz!”. Gosto muito dessa sensação.

Tenho mais na minha vida deste segundo tipo que do primeiro. Mas acho também que o primeiro não existe sem o segundo. Carrego uma lista grande de gente que me inspira. E, felizmente, ela segue aumentando com o tempo.

Começaria a lista com Mark Twain. Mesmo porque ele inspirou um monte de gente que me inspira também. Começou quando li Tom Sawyer pela primeira vez, muitos anos atrás. O capítulo do Tom Sawyer pintando a cerca é o tipo de coisa que, quando você lê, pensa “caramba, é isso mesmo” (com o soquinho leve na mesa e tudo mais). Quando eu leio Mark Twain, sempre dá uma coceira. Ele bota a gente para olhar as coisas de outra maneira – mais ou menos como Orwell faz também. Acho que é efeito da perspicácia que ele tinha para observar as pessoas e traduzir isso. Aliás, é bem essa a matéria-prima do nosso trabalho, não?

Podia seguir colocando nomes aqui, um atrás do outro, separados em categorias – Monty Python, Doulgas Adams, Billy Wilder, Hound Dog Taylor etc. etc. etc. Tudo gente que me faz querer fazer coisas. Mas dá para resumir de um jeito: o que me inspira é ver gente fazendo bem o que faz, levando aquilo para outro nível.

Pode ser nas coisas mais bestas. Outro dia, sem esperar muita coisa, fui ver Wet Hot American Summer: First Day of Camp. Já no primeiro episódio, bateu aquela inveja. Juntaram um pessoal absurdamente bom, que – dá para perceber – se divertiu horrores fazendo aquilo. Como é inspirador ver uma coisa dessas.

Pode ser também em alguma coisa grandiosa. He Named Me Malala, o documentário, me fez ficar pensando sobre um monte de coisa. Ver a história da Malala Yousafz enche a gente de coragem. Uma inspiração para vida – e aí ela entra na mesma categoria do meu avô.

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Lógico, tem a inspiração que vem direto de propaganda: você senta na sua mesa, olha em volta e tem um pessoal que é bom de verdade nisso que nós fazemos. Aqui à minha volta está cheio de gente assim. E quando você vê alguém tendo uma ideia incrível, bate aquela vontade de fazer alguma coisa também. Taí uma das melhores definições de inspiração.

Bem recentemente, o Caio Gianella (uma dessas pessoas brilhantes que esbarrei durante a carreira) criou um filme, junto com seu dupla Diego Oliveira, que entra fácil nessa categoria aí: Blood, de Bodyform. Não vou falar muito mais sobre esse comercial, para não acabar soltando um palavrão aqui. Obviamente, não adianta gostar de fazer propaganda e só se inspirar com propaganda.

Mesmo porque, se você mantiver a cabeça disponível, sempre vai ter mais chance de encontrar uma nova fonte de inspiração. Por exemplo, não posso dizer que sou lá muito fã de clowning. Mas quando eu vi o Slava Snow Show, caramba, aquilo ali é muito impressionante. Saber que existe gente que pega uma linguagem e tira o máximo daquilo, isso inspira. Eu aqui sigo acumulando esse tipo de inspiração (a do segundo tipo que falei lá no começo), que é para ver se pinta mais do primeiro tipo.

Daniell Rezende é diretor de criação da Talent Marcel