Reflexões na reta final

A idade está me fazendo cada vez mais babaca

A gente se distrai e a vida vai passando. Cheguei aos 70, idade que eu não supunha nem que existisse. Felizmente o tempo passou aos poucos, assim como a gente envelhece aos poucos. A vista vai ficando cansada, alguns músculos mais duros e outros mais moles. Assim a coisa anda, rumo ao tempo final de redenção e descanso.

Ao contrário do que imaginava, a idade está me fazendo cada vez mais babaca, a própria contrafação da sabedoria que antigamente se dizia que era a compensação pela velhice. Antes que se diga que não há compensação para a velhice e, com perdão da grosseria, melhor idade é a puta que o pariu. Mas por que concluo que estou ficando babaca? Porque estou chorando vendo La La Land, estou lendo poesia e minha capacidade de me enternecer está pelas alturas.

Acho que se assistisse de novo aquele filme que a heroína morre de leucemia (que tinha aquela frase amar é nunca pedir perdão, lembram-se?) seria capaz de me dissolver em lágrimas. Qualquer dia desses vou me emocionar vendo, na TV Brasil, velhos episódios de Lassie e sentir um nó na garganta com o The Voice Kids. Não há, como se vê, degraus a descer. Babaquice é uma doença irreversível e os comerciais de automóveis de autoajuda (trocadilho infame esse) estão aí para provar o que eu digo.

Já me pilhei meditando na profundidade da ideia de que eu é que faço meu o caminho e é preciso estar atento ao novo, pois após a montanha existe outra e é para lá que eu vou enquanto existir montanhas. Quando uma bobagem dessa me deixa pensativo eu sinto Drummond balançar a cabeça, esteja ele onde estiver, e me considerar um caso perdido.

Mas o propósito disso tudo é dizer que existe outra doença além da velhice capaz de deixar um cidadão absolutamente imbecil. Chama-se amor. É bem verdade que amor tem cura e velhice não, mas um velho gagá e um jovem apaixonado têm similitudes evidentes. Eu disse similitude? Não disse que estou ficando velho? Dessa palavra quem gostava era meu professor de português do Colégio de Aplicação da USP, no fim dos anos 1950. Similitude e questiúncula são duas palavras vestidas de sobrecasaca que não me saíram da cabeça desde aquela época e, quando é possível, eu uso em sua homenagem. Voltando.

Eu estava no meu querido restaurante Alcaparra jogando conversa fora e entornando um vinho quando entra no recinto uma deusa carioca, daquelas lendárias que inspiram poetas, pintores e compositores. Alta, morena, olhos verdes. Ela vinha ondulando, meneando, desfilando, exibindo o que a seleção da espécie pode criar. Acho que tinha o melhor de todas as raças humanas reunidas desde o tom da pele ao desenho do busto e a forma das nádegas. Não era uma mulher, era um evento. Atrás dela, um publicitário conhecido de quem não farei delação nem sob tortura.

Cinquenta anos, barriguinha proeminente, calvície mais ou menos pronunciada, mas meio com tudo em cima: tez morena de vida ao mar, roupinha de grife, relógio Rolex. Certo ar de prosperidade, um jeito mundano e internacional de ser, uma certa intimidade com as salas VIP da vida. Ele vinha trotando atrás da moça, tentando fazer cara de “estou comendo” para despertar inveja da plateia. Tremia de emoção só de poder respirar o mesmo ar que ela respirava. Fascinado, amarrado, um cão feliz puxado por uma coleira invisível. Silêncio respeitoso no restaurante lotado.

Ele tenta disfarçar, fingir para o restaurante inteiro que faz aquilo todo dia. Cumprimenta os conhecidos e sentam-se. O maître pergunta: “alguma bebida para começar?” E o nosso amigo, em pleno almoço de quarta-feira, calor de arrasar, faz um muxoxo e ordena: “enquanto escolho, traz uma Veuve Clicquot. Brut!” E bebericou o champanhe como se Coca-Cola fosse, olhar perdido no mar e nos dos olhos dela. Quase irrompemos em aplausos. Definitivamente o amor é lindo. Morri de inveja do babaca.

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