O Brasil voltou

Entrevista com Marcos Quintela

Presidente de um dos maiores grupos de comunicação da América Latina, o Newcomm, Marcos Quintela está otimista com o Brasil. Mas, faz questão de frisar, não é um “otimismo utópico”. E enumera fatos e dados concretos para afirmar o porquê acredita que o pior da crise econômica passou: o desemprego diminui, as vendas do varejo crescem, investimentos são anunciados quase diariamente, projetos estão sendo desengavetados e, nas rodinhas de empresários, as lamentações deram lugar a conversas sobre oportunidades. O Brasil, diz ele, voltou: voltou a investir e a acreditar no futuro, mesmo em meio à aparentemente insolúvel crise política.

Aos 46 anos de idade, casado, dois filhos, Quintela esta às vésperas de assumir o comando total do Newcomm - no próximo mês, o chairman Roberto Justus deixa a atividade publicitária para se dedicar ao show bizz e a outros negócios. A vitoriosa carreira de Quintela na publicidade teve um início um tanto inusitado: começou a trabalhar como cantor mirim no grupo musical Dominó, que fez muito sucesso nos anos 1980. Abandonou o lado artístico para se tornar sócio da cantora Eliana, da qual cuidava do merchandising e licenciamentos. Foi por meio dela que conheceu Roberto Justus, já um publicitário consagrado.

Após desfazer a sociedade com a cantora, foi convidado por Justus, em 2003, para abrir uma empresa de eventos e below the line no grupo Newcomm, no qual, pouco tempo depois, foi chamado para assumir a diretoria de operações. Em 2009, tornou-se presidente da Young & Rubican (além da Y&R, a holding Newcomm reúne as agências Grey Brasil, Wunderman, VML, Red Fuse e a empresa Ação Premedia e Tecnologia). E, em 2015, assumiu a presidência do grupo.

Na entrevista a seguir, Quintela fala sobre o seu otimismo em relação ao futuro econômico do Brasil e detalha como é formado e como é o trabalho do grupo Newcomm.

 

O Sr. acredita que o pior da crise econômica já passou?

Para responder a isso, dou um exemplo recente que vivi. Foi no fórum de marketing empresarial do Lide (realizado no Guarujá, no litoral de São Paulo, no mês de agosto).  Lá, percebemos que ninguém colocou a crise em pauta. Seja nas palestras, nos debates, nas conversas informais, não se falou nisso. Outro dado interessante é que esse foi o mais lotado de todos os oito fóruns já realizados. Deu overbooking em tudo, nos auditórios, no restaurante, tinha gente que queria se inscrever de última hora, mas não havia mais acomodação. Enfim, um encontro de empresários, que são quem toca a economia, dando sinais de que a situação no mínimo não está mais tão desanimadora. Não é que a economia esteja bombando, não é isso. Mas ouvimos que planos de investimento estão sendo desengavetados. O varejo está otimista em relação à Black Friday deste ano, as previsões de vendas para o Natal estão sendo revistas para cima. Então a gente vê que o Brasil voltou, voltou a investir, mesmo com a crise política sem fim. No começo do ano, o otimismo tinha voltado, mas os investimentos não. Agora as coisas estão sendo realizadas. A Rede Globo já fechou todas as cotas do futebol de 2018, e as cotas da Copa do Mundo estão vendendo bem. Outros canais de TV, que não estavam pensando em transmitir a Copa, já estão revendo a estratégia e nos procurando.  O segmento de beauty está crescendo, ou seja, coisas que são aparentemente supérfluas, que se cortam quando a situação aperta, estão reagindo.

 

E no varejo popular?

Está reagindo no básico, mas reagindo. Não está vendendo TV de 60 polegadas, mas de 30, sim.  A venda de linha branca está crescendo.

 

Muitos analistas dizem que o fato de ter sido aprovada a reforma trabalhista, mesmo que não como o governo pretendia, já serviu para dar um impulso de otimismo na economia. A reforma da Previdência, mesmo que mude apenas alguns pontos básicos, é o que falta para o Brasil deslanchar?

Eu gostaria que sim. A mudança trabalhista foi tímida, mas de certa forma ajudou a melhorar a percepção dos agentes econômicos. Porém, talvez isso não ocorra na Previdência, se essa reforma proposta se resumir a duas ou três alterações básicas. Porque o tema é muito mais complexo. Corre-se o risco de se criar um Frankestein, que não vai funcionar. Acaba virando apenas propaganda eleitoral. O problema é que a gente sabe que o governo atual tem cada vez menos tempo e força para fazer o dever de casa correto. Isso preocupa. Por outro lado, vemos que a equipe econômica, comandada pelo Henrique Meirelles, está funcionando. Mas talvez mexer na Previdência para valer não ocorra agora.

 

Em 2108, a retomada vai se consolidar, a economia se descola da política?

Acredito que vai continuar o que chamo de inércia positiva. Um certo descolamento de fato já foi feito. Mas teremos um novo presidente eleito no ano que vem. E aí vamos passar a depender dessa pessoa física. A partir de janeiro de 2019, vamos depender dos dois caras que vão comandar o país, no Executivo e na área econômica. E, por enquanto, a gente vê vários players surgindo sem termos ainda um quadro claro de quem de fato vai ter chances. Será, por exemplo, que o Lula volta? Isso vai impactar a economia, para o bem ou para o mal. 

O Temer, apesar dos pesares, não está caindo na tentação populista.

Correto, ele sabe que não tem mais timing para isso. E principalmente não enxergou o sucessor ainda. Não tem uma agenda escondida para o próximo candidato. Não sabe se vai apoiar alguém do PMDB ou de qual coligação. Por isso, está um pouco mais isento.

 

Mas você acha que a economia até lá estará sujeita a solavancos, como o que ocorreu quando o escândalo da JBS respingou no Temer?

Há pouco tempo, numa reunião no Bradesco, me disseram que o principal ativo dos grandes bancos não está na taxa de juros ou nos empréstimos, mas no acerto de previsões. Porque todo o resto está indexado a isso.  Por isso, o Bradesco, o Itaú e o Santander investem muito em pesquisas, criam mecanismos complexos de estudo, tudo para acertar previsões. E o que me contaram foi que, em 2015, eles esperavam a primeira reação do mercado para o primeiro semestre deste ano. Veja bem, isso lá em 2015. E falaram que o pico do desemprego seria em abril de 2017, o que os índices de avaliação do emprego têm confirmado. E a previsão é a de que a economia vá apresentar crescimento mais sólido no primeiro semestre de 2018. Então isso me faz ficar otimista, não utópico, mas otimista.

 

Como está o grupo Newcomm hoje?

Ele é algo diferenciado não só na América Latina, mas no mundo todo. É uma holding muito peculiar. Eu não conheço um grupo que tenha uma operação com as verticais como o Newcomm tem.

 

Verticais?

A Young & Rubicam tem a sede em regional em Miami, o headquarter em Nova York e o presidente mundial fica em Londres, onde também está a sede do grupo WPP. Nós temos mais de 100 agências Y&R no mundo inteiro. O Laloum responde a essa hierarquia. Da mesma forma, a Grey, a sede da regional América Latina fica no Equador, e em Nova York fica a sede mundial. A VML reporta a Kansas City. A Wunderman, o regional fica na Argentina e a mundial em Nova York. Tem a Red Fuse, que cuida de Colgate Palmolive, em Paris e Nova York. E a Ação, que é nacional. São cinco verticais, com presidentes regionais, CFOs e presidentes mundiais consolidando faturamentos diferentes. E isso só a Newcomm tem, uma holding com essas verticais no mundo todo. São todas do WPP, mas competem entre elas – menos a Red Fuse.

 

Como funciona no Brasil?

A Newcomm é sócia dessas companhias, que ela tenta viabilizar a sinergia sem conflito. Mas o maior conflito que pode ocorrer é o conflito entre essas culturas. A gente não pode dizer daqui para frente tudo tem de ser assim. Porque o report dessas agências é Miami ou Nova York etc., nós somos advalue, adicionamos valor. Para isso, temos um BackOffice muito forte. É uma estrutura muito grande, na Avenida Faria Lima com a Rebouças (São Paulo). Cuida do financeiro de todas, do departamento do pessoal, do jurídico, o checking de mídia e atualização de pedidos de inserção de mídia. Tudo que pode ter sinergia e eficiência de performance e custo, a Newcomm cuida. Desde comprar passagens aéreas, negociar planos de saúde etc., mas tem de respeitar as culturas diferentes.

 

O Sr. pode dar um exemplo?

Digamos que a Y&R quer dar ovos de Páscoa para seus funcionários, ovos tradicionais, só que a Grey quer dar rosas de chocolate. Isso é um exemplo simples. Tenho de atentar sempre à diversidade dessas agências. Mas tem a questão dos conflitos de clientes, que não são muito raros. E eu tenho de controlar quem avança, quem para e quem recua. Porque podemos competir entre nós, mas o que não pode acontecer é que essa competição fique tão acirrada e descoordenada e o grupo perca, quem ganhe seja um concorrente de fora.

 

Nessas horas sr. tem de ser diplomático?

Tenho de ser isento. Eu posso saber que a Y&R está numa mesma concorrência que a Grey. Eu não vou interferir. Preciso ter a experiência de saber como estar melhor na concorrência. Ouço as estratégias de cada um e chego à conclusão de qual agência está melhor. Também busco direcionar as especificidades de cada uma para cada concorrência. É um trabalho de crossbusiness. Eu tenho de conhecer a fundo as culturas e potenciais de cada uma das componentes do grupo.

 

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