O Leão de cabeça branca

Obla di, obla dá

Em 1988, portanto há 29 anos, eu ganhava meu primeiro Leão no Festival de Publicidade de Cannes. Trabalhava no mesmo grupo de comunicação em que estou agora. Por causa da premiação, passado algum tempo, recebi algumas regalias no ambiente corporativo.

Uma delas foi contar com a ajuda de um, àquela época, redator-aprendiz: o Luiz. Criativo e curioso, era literalmente minha sombra, com seus 20 centímetros a mais de altura. Fizemos dezenas de anúncios, comerciais e spots de rádio juntos até que a correnteza do turn-over nos afastasse para margens distantes.

 

Circulei por “n” agências, de “x” propostas e abordagens: de butiques criativas a empresas especializadas em varejo imobiliário, incluindo eventuais empreitadas próprias. Durante esse tempo, fui agraciado com diversos lauréis importantes do setor. Mas, como todo mundo, também amarguei períodos de exílio forçado da atividade e cheguei a pensar que a Mãe Propaganda não me queria mais.

 

Meio desorientado, cogitei até abrir um restaurante. No entanto, a rotina de despertar às 4 da manhã para ir à Ceagesp não combinava com meus hábitos notívagos. Mudei os planos, reuni capital para fundar uma pequena editora com foco em autores esquecidos. Mas, ó Deus meu, quem ainda se dispõe a ler inéditos nesse país?

 

Por fim, larguei a ideia fixa de empreender e decidi pedir um novo lugar ao sol em meu tradicional domicílio: a velha e boa publicidade. Devo, contudo, lembrar que nossa área é caprichosa. Não vai aceitando assim de volta, como se nada tivesse acontecido.

 

Ainda que meu currículo estivesse recheado de feitos dignos de um Ulisses, tive de usar o elevador de serviço para voltar a frequentar o condomínio. Comi a pizza que o diabo amassou em noites viradas no laptop, vim trabalhar em fins de semana cheios de sol e bicicletas flutuando no parque (e digo isto não para me colocar como o mártir do marketing, mas porque o ofício sempre exigiu sacrifício – seja para Olivettos, seja para
Castelos).

 

Felizmente, com um pouco de sorte e a solidariedade de ex-colegas, voltei ao princípio de tudo, estou de novo trabalhando junto a um jovem e promissor redator. Dessa vez o Marcos, que se senta à mesa ao lado e troca figurinhas comigo.

 

Agora, 29 depois, ganhei outro Leão no Festival de Publicidade de Cannes. De prata, para combinar com minhas melenas grisalhas. E o melhor de tudo, o Luiz e o Marcos também ganharam os deles.

 

Nós três, redatores de diferentes gerações, como uma brincadeira do destino, curiosamente estamos trabalhando no mesmo grupo de comunicação, aquele em que eu estava em 1988 e agora.

 

Isso mostra que tudo pode nos surpreender. Até a propaganda. Especialmente quando ela deixa de ser apenas a alma do negócio para ser um negócio de alma.

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