No fim do jogo: narrativa ou estrutura quem decide essa eleição?
André Pessoa: Pelo meu método de trabalho, minha resposta não poderia ser outra: narrativa, sem dúvida. Estrutura continua sendo importante. Mas, na era das redes sociais, ela deixou de ser o fator decisivo que já foi em outros momentos. Hoje, estrutura é como remédio em dose errada. Na medida certa, ajuda. Em excesso, intoxica a campanha.
Ricardo Amado: Estrutura e narrativa têm papel importantíssimo na vitória de um candidato. Mas é muito difícil, uma caminhar sem a outra. Para fazer com que a sua narrativa chegue para mais pessoas, você precisa de mais tempo de televisão. Isso quer dizer que você precisa de mais estrutura, mais política, mais partidos colegados.
Qual erro estratégico você vê se repetir?
AP: O erro que mais se repete é superestimar a estrutura e subestimar a autenticidade, o posicionamento e a narrativa. Muita gente ainda se baseia na lógica de eleições mais antigas e não percebeu que o caminho mudou. Ainda não ajustou o Waze para a rota do agora.
RA: Um erro que vejo se repetir é o autofagismo. Campanhas que comunicam, estruturam narrativa e discurso apenas para o próprio universo, baseadas numa leitura particular. Fazer uma campanha alheia às pesquisas quantitativas e movida apenas pelas certezas do político ou do marqueteiro, sem o apoio de uma pesquisa qualitativa para corrigir rumos e fortalecer discursos, é fazer uma campanha fadada ao erro e à derrota.
Carisma se aprende ou é inegociável?
AP: Carisma é, em grande medida, talento. Mas talento também pode ser desenvolvido. Quem já nasce com isso larga na frente; quem não nasce pode evoluir com treino e esforço. O esforço às vezes pode se igualar ao talento nato. Mas quem tem o talento, pode se dar ao luxo de fazer menos esforço.
RA: Carisma pode ser vocacional, mas também pode ser desenvolvido. Em certa altura da vida, algumas pessoas se tornam figuras carismáticas. Carisma reúne valores como empatia, simpatia, comunicação e persuasão. Em alguns casos ele é nato, em outros surge a partir de experiências da vida.
O que é mais perigoso: errar no posicionamento ou não ter posicionamento?
AP: Não ter um posicionamento, com certeza. Erros podem até ser corrigidos. A omissão, quase nunca.
RA: As duas coisas são muito maléficas. Errar no posicionamento durante a pré-campanha ou campanha ainda pode ser corrigido. Mas a ausência de posicionamento é pior porque impede o candidato de expressar seu campo político, propostas, objetivos após a eleição e o sentido da própria candidatura e projeto político.
O marketing político está ficando mais sofisticado ou mais raso?
AP: Paradoxalmente, mais sofisticado nas ferramentas e mais raso no resultado. Quando todo mundo tem acesso às mesmas tecnologias, cresce a tentação de trocar intuição, repertório e sensibilidade por fórmula.
RA: O marketing político está ficando mais raso. Existe uma linha muito tênue entre a sofisticação tecnológica e a sofisticação da campanha. Tudo isso pode enriquecer a campanha, mas também transformar narrativa, conceito e verdade em apenas adereço.
Eleição se ganha evitando erro ou acertando grande?
AP: Depende da eleição e do ponto de partida. Quem já entra competitivo tende a ganhar mais errando menos. Quem começa muito atrás precisa acertar grande, porque jogar pelo seguro, nesse caso, normalmente é só uma forma elegante de perder.
RA: A campanha ganha-se mais acertando do que apenas procurando evitar o erro. Apenas evitar o erro é uma postura bastante acanhada, né? Você fica ali se protegendo, e pode fazer com que a sua comunicação e o seu posicionamento político sejam inodoros.




