Por Flavio Waiteman, sócio e CCO da Tech&Soul
Ninguém aprende mais rápido e mais profundamente do que os algoritmos. Eles já estão em 2040. Emocionalmente, nós estamos em 1920, na época de temer coisas que não existem, bastando para isso algumas palavras mágicas que viram chavinhas no emocional, como: “comunismo”, “pessoas de bem”, “a verdade prevalecerá”.
Truques semânticos mobilizam multidões como O Flautista de Hamelin, que enfeitiçou pragas de ratos primeiro e depois crianças em direção ao desfiladeiro. Este ano, em novembro, vamos passar por um momento decisivo em dois países distintos, onde a supremacia algorítmica trava as suas grandes batalhas globais. As eleições americanas e a nossa.
As plataformas digitais são as novas caravelas colonizadoras espalhando espelhinhos hipnóticos aos índios do continente americano. O reflexo faz Narciso perder horas no scroll e não acompanha nada que seja o amor e o ódio.
Já nos são comuns e corriqueiras as realidades paralelas e que se sobrepõem em universos idem. Não haverá mais o que documentar, pois não se mostra o óbvio e o status quo. Quando o escândalo se normatiza, é só um dia a dia comum que estamos vivendo. Os algoritmos, agentes, robôs e plataformas sabem o que fazer para conseguirem os resultados que desejam. E isso é cada vez menos notado.
É possível fazer hoje um cardume de salmão votar no urso que os espera no meio da subida do rio. Nas últimas eleições, latinos e pretos votaram no candidato que expulsou latinos e endureceu e burocratizou regras onde os pretos votam.
O truque virou método, bancado por verbas de publicidade e uma audiência hipnotizada por dopamina barata em meio a uma enxurrada de engajamento robótico. Agentes de IA também fazem reviews de consumo com comentários.
Após o manifesto dos Palantir, que presume que a democracia já não atende mais ao objetivo deles da monopolização total, na estratégia “the winner takes it all”, a fragilização dos sistemas eleitorais será o foco. Quem garante o caminho livre são as palavras: bicho-papão, homem-do-saco e “sou uma pessoa do bem”. O cerco se fecha em países como o Brasil, que deseja regulamentar as redes. Ou ver livre o seu Pix.
Se acha que exagero um pouco, leia a encíclica do papa Leão XIV sobre a IA (‘Magnifica humanitas’) e se pergunte: se a Igreja se recusou a modernizar a missa e se aproximar das pessoas e da sua vida real, por que o papa, que é americano, expõe assim a preocupação sobre as plataformas?
Pedi para a IA sintetizar a Encíclica e ela fez o seu trabalho:
Em uma frase, a mensagem central de Leão XIV sobre as redes sociais poderia ser resumida assim: “O problema não é a tecnologia; o problema é quando os algoritmos passam a decidir quem somos, o que pensamos e como nos relacionamos.”
E, por isso, acredito que nunca mais vamos falar sobre qualquer escândalo envolvendo manipulação das plataformas digitais, pois quando o escândalo se normaliza, o escandaloso obtém passe livre e esquisito se torna quem aponta o problema.

