Por Thomaz Naves, VP comercial e de marketing da Times Brasil CNBC e presidente do Conselho da ABMN
Em 1996, quando idealizei a Semana Barra Shopping de Estilo, muita gente achou que era ousadia demais. Talvez fosse mesmo. Mas, para mim, a criatividade nunca foi apenas uma ferramenta de trabalho. Sempre foi uma forma de viver. E naquele momento, o que me movia era uma convicção muito clara: o Brasil precisava de uma plataforma que organizasse, projetasse e valorizasse a sua moda.
A ideia nasceu de uma conversa, como tantas boas ideias nascem. Ao lado da estilista Mary Zaide, comecei a desenhar o que viria a ser um novo capítulo para o setor. Levei o projeto adiante dentro do BarraShopping, com o apoio e a visão estratégica de José Isaac Peres.
Falar do José Isaac Peres é falar de alguém à frente do seu tempo. Já naquela época, ele via os shopping centers como plataformas de comunicação, relacionamento e experiência, e com essa visão ajudou a transformar o setor no Brasil, criando verdadeiros ecossistemas. Trabalhar ao seu lado foi uma escola. Com clareza estratégica e foco em resultado, ele também tinha uma disciplina única na construção de marca. A assinatura ‘Faça parte desse sucesso’ traduzia sua filosofia de forma simples e precisa: as pessoas querem estar próximas de quem constrói algo relevante.
Essa forma de pensar foi determinante para que projetos como a Semana BarraShopping de Estilo ganhassem força. Porque, no fundo, não estávamos apenas criando um evento. Estávamos construindo valor, atraindo marcas, gerando desejo e levando o shopping, aliás, mais do que o shopping, de certa forma, a própria cidade, e toda a moda brasileira, a um novo patamar. A Semana BarraShopping de Estilo nasceu com esse espírito. Não era apenas sobre desfiles. Era sobre criar valor, gerar movimento, aproximar marcas, estilistas e público. Era sobre profissionalizar um mercado que ainda buscava reconhecimento internacional.
Lembro-me de apresentar o projeto com um objetivo que, à época, parecia ambicioso demais: colocar a moda brasileira no cenário global. Falávamos em atrair compradores internacionais, em construir marcas com identidade, em exportar criatividade. Poucos anos depois, esse movimento começou a se concretizar. O mundo passou a olhar para o Brasil com mais atenção.
A partir dali, vieram desdobramentos importantes. Criamos o Morumbi Fashion Brasil, que mais tarde daria origem ao São Paulo Fashion Week. O mesmo aconteceu com a própria semana carioca, que evoluiu e se consolidou como o Fashion Rio. Foram movimentos que ajudaram a estruturar um ecossistema, dando consistência a um setor que hoje é reconhecido mundialmente. Além disso, criamos o BH Fashion Week, que chegou a ter duas edições, e o ParkShopping Fashion Week, em Brasília.
Nada disso se constrói sozinho. Tive o privilégio de trabalhar com pessoas extraordinárias ao longo desse caminho. Roberto Medina, por exemplo, foi um parceiro criativo fundamental naquele momento, sempre desafiando o óbvio. E Paulo Borges, que na época atuava como diretor artístico, ajudou a dar forma e linguagem a esse novo momento.
Mas, acima de tudo, aprendi que grandes transformações nascem da capacidade de reunir pessoas em torno de uma ideia. Liderar é, essencialmente, conectar. É reconhecer talentos, incentivar, construir junto. Foi isso que vi nos grandes líderes com quem trabalhei. Hoje, ao ver o retorno de uma grande semana de moda ao Rio de Janeiro como o Rio Fashion Week 2026, sinto que aquele movimento iniciado décadas atrás continua vivo. A cidade retoma seu protagonismo e revisita um espírito que ajudamos a construir lá atrás. Um espírito de inovação, de ousadia e de crença no potencial criativo brasileiro.
O tempo passa, os formatos evoluem, mas a essência permanece. A moda continua sendo uma poderosa ferramenta de expressão cultural, de geração de negócios e de conexão com o mundo. Se existe uma lição que levo dessa trajetória, é simples. Criar, muitas vezes, é enxergar antes. É acreditar antes. É fazer mesmo quando ainda não parece óbvio.
Foi assim em 1996. E continua sendo assim até hoje.

