Por Alexis Thuller Pagliarini, sócio-fundador da ESG4
O ESG não perdeu relevância; apenas perdeu parte do entusiasmo inicial que o cercava. Nos primeiros anos, muitas empresas correram para adotar a sigla porque ela representava inovação, reputação e acesso a investimentos. Houve também uma forte cobertura da mídia.
Porém, com o tempo, surgiram alguns problemas: Empresas praticando “greenwashing” (discurso sem prática). Excesso de relatórios e burocracia. Uso da sigla ESG sem conexão com resultados reais. Mudanças econômicas que fizeram muitas organizações voltarem o foco para questões financeiras imediatas. O resultado foi um desgaste da marca “ESG”, mas não dos temas que ela representa. O caminho não é ressuscitar a moda do ESG.
Talvez a pergunta não seja “como fazer o ESG voltar a brilhar?”, mas sim: “Como fazer sustentabilidade, responsabilidade social e boa governança voltarem a ser percebidas como essenciais para os negócios?”. O ESG precisava mesmo sair do discurso e voltar para a vida real. Algumas estratégias cabíveis:
- Trocar a sigla pelas histórias. As pessoas se conectam com histórias, não com siglas. Em vez de dizer simplesmente “Implementamos um programa ESG”, dizer: “Reduzimos em 40% o desperdício de água”. “Contratamos mulheres da comunidade local”. “As crianças da recreação aprenderam a cuidar da natureza brincando”. Tangibilizamos assim os resultados; o impacto fica concreto.
- Demonstrar retorno financeiro. Uma das razões do arrefecimento foi a percepção de que ESG gera apenas custo. É preciso mostrar mais claramente os benefícios da aplicação ESG: Reduz desperdícios. Diminui riscos. Aumenta fidelização de clientes. Atrai – e mantém – talentos. Melhora a reputação. Melhora o clima dentro das empresas. Quando ESG é apresentado como ferramenta de gestão, e não apenas causa social, ele ganha força.
- Falar de pessoas. O “S” do ESG ainda é pouco explorado. Temas como: Saúde mental. Inclusão. Educação. Qualidade de vida. Desenvolvimento infantil. Engajamento social. São assuntos que geram identificação imediata.
- Criar experiências. As pessoas aprendem mais participando do que ouvindo palestras. Imagine: Clientes plantando árvores (ou patrocinando o plantio). Crianças criando hortas. Oficinas de reaproveitamento de materiais. O ESG, assim, deixa de ser conceito e vira vivência.
- Abandonar o tom moralista. Muitas iniciativas fracassam porque parecem dizer: “Você está fazendo tudo errado”. Uma abordagem mais eficaz é: “Existem maneiras mais inteligentes, econômicas e humanas de fazer as coisas”. Isso gera adesão em vez de resistência. É preciso deixar claro que ESG é um processo contínuo e não uma força-tarefa. Por outro lado, devemos ter em mente que há novas demandas legais pela aplicação do ESG.
A partir deste ano, empresas listadas na Bolsa devem apresentar relatórios não financeiros, em compliance com as práticas de respeito socioambiental e de governança ética e transparente. Também a partir deste ano, empresas que exportam para a Europa devem comprovar que seus produtos não são oriundos de terras desmatadas. Pensando de uma forma mais ampla, cresce o número de consumidores mais conscientes e críticos. Questões como circularidade, uso de insumos sustentáveis, embalagens menos agressivas ao meio ambiente, ganham importância nas decisões de compra. O futuro do ESG não está em falar mais sobre ESG. Está em mostrar, de forma simples e mensurável, como cuidar das pessoas, do planeta e da gestão melhora a vida e os resultados das organizações.
Talvez seja justamente agora, depois que a moda passou, que exista espaço para um trabalho mais sério, profundo e duradouro. Quem continuar atuando quando os holofotes se apagam costuma ser quem constrói transformações reais.

