Por Diego Alonso, copresidente da BETC Hava
Quando meu filho tinha 6 anos, após uma boa negociação com a mãe, o levei para a África do Sul para ver a Copa do Mundo. Para ele sentir e criar uma identidade com uma causa que poderia estar em risco antes de começar.
Hoje ele tem 22 anos. E já fomos juntos a quatro Copas do Mundo. Sou uruguaio. Mas escrevo para vocês porque há algo nessa tradição que construímos, ele e eu, de Copa em Copa, que me parece universal. Algo sobre rituais, valores, paixão e tradições.
O começo: África do Sul, 2010
Morávamos na Argentina, o Uruguai voltava às Copas e meu filho era pequeno. Eu tinha de fazer algo logo, antes que a maquinaria pró-Messi o arrastasse para um lugar de difícil retorno. Estava na hora da salvação.
A África do Sul era um lugar diferente de tudo que já havia visto. Da crua Joanesburgo à fascinante Capetown, o barulho ensurdecedor das vuvuzelas, Shakira incansável com seu ‘Waka Waka’. E a Celeste avançando até as semifinais, depois de eliminar Gana e deixar para trás a última seleção africana naquele jogo maluco. Meu filho não entendia tudo, mas entendia que aquilo era importante e que era normal o Uruguai chegar longe nas Copas.
Melhor roteiro impossível. Começamos com o pé direito. Voltamos com passaportes carimbados, safaris, vuvuzelas, várias faltas na escola e algo mais difícil de nomear: memórias inesquecíveis e a certeza de que precisávamos fazer aquilo de novo.
Brasil, 2014: a mordida
Quatro anos depois, estávamos no Brasil. Se a África do Sul havia sido uma revelação tranquila, o Brasil foi pura adrenalina, buggies no meio do Nordeste, toboáguas insanos, rodízios infinitos de churrasco, nos estádios mais caros da história do futebol. Meu filho e eu estávamos em Natal no dia em que Luisito mordeu Chiellini. Uruguai vs. Itália. Meu filho tinha 10 anos. A jogada passou despercebida dentro do estádio. Ganhamos, comemoramos. Só depois, no quarto, vendo o replay, vimos juntos o que havia acontecido. Sabíamos que nosso Mundial tinha acabado por aí. Para um uruguaio e torcedor do Nacional, Suárez é um personagem impossível de simplificar. Herói e anti-herói. Gênio e problema. Um amor que não pede desculpas e não cabe em nenhuma análise racional. Naquele dia, em Natal, sentimos tudo isso ao mesmo tempo.
Rússia, 2018: o mundo que não esperávamos
A Copa da Rússia foi, sem dúvida, a melhor que vivemos juntos. O mundo chegou desconfiado. Saiu encantado. Encontramos cidades lindas, pessoas calorosas, uma hospitalidade que nenhum de nós esperava.
Meu filho já tinha 14 anos e começava a ter opiniões formadas sobre o mundo. Lembro de uma das conversas, sentados no bar do Bolshoi, tentando reconciliar o que sabíamos com o que estávamos vivendo. Tudo era esplendor, rodeado de harmonia, segurança e sobretudo respeito. O Uruguai chegou às quartas, quando perdemos para a França, que acabaria campeã. Mas o que ficou foi a certeza de que a experiência venceu a narrativa.
Catar, 2022: a Copa de figurantes
Foi a Copa mais politicamente carregada da história. Chegamos no meio de debates sobre direitos humanos e questionamentos sobre a escolha da sede. Para quem estava lá, uma experiência de dupla consciência: a emoção pura do futebol raiz, contrastando com torcedores que trocavam de camisa conforme o jogo, seguindo astros e não times. Diferente. Estranho. O Uruguai foi eliminado na fase de grupos, numa saída dolorosa e injusta que ainda me dói. Mas saímos do estádio juntos, em silêncio, e isso também faz parte do ritual. A derrota compartilhada une tanto quanto a vitória. Talvez mais.
O que fica
Começa nossa nova Copa. Não sei explicar com precisão o que é isso que construímos. Não é apenas futebol. Não é apenas viagem. É nossa história. É a combinação das duas coisas com algo intangível: a sensação de pertencer a uma tradição que é exclusivamente nossa. Para mim, essa história tem nome e sobrenome, e sempre viaja no assento ao lado.
Vamos nos ver no próximo jogo. De celeste, nervosos, felizes, como sempre. O ritual continua.



