Na era da IA, um grande viva às pessoas

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Mauro Rabello, VP de business development na Innocean Brasil

Existe algo de curioso, e até meio irônico, no deslumbramento atual com a inteligência artificial. Nunca se falou tanto em tecnologia. E, ao mesmo tempo, nunca foi tão importante falar de gente. O fascínio do mercado é compreensível. A IA acelera processos, encurta caminhos, organiza o caos, cruza dados, simula cenários, sugere saídas e devolve respostas em uma velocidade que, até pouco tempo atrás, parecia ficção. Em muitos casos, faz tudo isso com uma qualidade suficientemente boa para impressionar.

E é justamente aí que mora o perigo. Quando a régua sobe em velocidade e escala, é natural que se confunda onde está de fato a vantagem competitiva. Ela não está na ferramenta. Ou, pelo menos, não está mais aí.

Ferramenta se espalha, democratiza, vira commodity. Em pouco tempo, deixa de ser diferencial para se tornar pré-requisito. O que não acompanha essa mesma lógica é o repertório. Graças a Deus, não se democratiza com a mesma facilidade e não há fórmula exata para o intelecto, a capacidade de julgamento, o olhar crítico ou a leitura de contexto. Não se pluga em nenhuma plataforma a sensibilidade para perceber nuances, tensões culturais, timing ou contradições. Muito menos a habilidade de fazer a pergunta certa ou entender o que não foi dito.

É por isso que, na era em que a IA avança sem pedir licença sobre praticamente tudo, faz sentido propor um viva às pessoas. Não como um gesto romântico de resistência à tecnologia, isso seria ingênuo. A tecnologia não só veio para ficar, como vai evoluir rapidamente e redesenhar, de forma profunda, a maneira como trabalhamos. O ponto não é lutar contra ela. É não terceirizar para ela aquilo que segue sendo essencialmente humano. A IA ajuda, e muito. Mas não vive o mundo. Não acumula repertório de vida. Não percebe o cheiro de oportunismo em uma ideia travestida disfarçada de inovação. Não distingue, com clareza, uma resposta correta de uma resposta relevante. Não constrói visão de negócio, não estabelece confiança e não assume responsabilidade pelo impacto do que ajuda a colocar no mundo. Esse debate ganha ainda mais peso dentro das agências.

Durante muito tempo, o mercado foi moldado pela capacidade de responder rápido, produzir em volume, operar sob pressão, lidar com o caos e seguir entregando. Essa musculatura continua importante, mas já não é suficiente. Se a máquina passa a absorver uma parte crescente do operacional, o valor do humano muda de lugar e sobe de nível. Passa a valer mais quem interpreta melhor, conecta melhor, lê melhor a cultura, o negócio e o momento. Passa a valer mais quem usa a IA para ampliar potência, e não para terceirizar raciocínio.

A IA não ameaça apenas funções ou fluxos. Ela ameaça o pensamento preguiçoso de quem se acostuma rápido demais a respostas prontas, estruturas prontas e caminhos que parecem bons apenas porque chegam bem embalados. Por isso, a discussão central talvez não seja sobre tecnologia. Seja sobre formação, repertório e desenvolvimento real de gente. Não se trata de treinamento cosmético, workshops protocolares ou desfiles de palavrinhas da moda.

Trata-se de formar profissionais capazes de pensar com profundidade em um ambiente que insiste em empurrar, o tempo todo, todo mundo para a superficialidade. Profissionais que saibam usar a IA com inteligência, mas que saibam, também, quando desconfiar dela. Que consigam equilibrar dados e sensibilidade, eficiência e critério.

Porque as marcas do presente e ainda mais as do futuro próximo não vão precisar apenas de operadores mais eficientes. Vão precisar de parceiros capazes de traduzir complexidade, separar sinal de ruído, dar sentido ao excesso e trazer visão em um ambiente saturado de informação e carente de clareza. E isso, até aqui, continua sendo trabalho de gente boa. Muito boa. Quanto mais artificial o ambiente se torna, mais valiosas tendem a ser as pessoas. Aquelas que não se resumem à memória ou à velocidade, mas as que combinam repertório, sensibilidade, escuta, intuição e leitura de contexto.

Que não apenas respondem, mas provocam. Na era da IA, talvez o maior diferencial não esteja em quem usa melhor a máquina, mas em quem continua pensando além dela. E, por isso, sim, um grande viva às pessoas.

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