Por Ana Kuroki, CSO da Africa Creative
Eu não acredito que exista uma fórmula única para criar relevância. Se existisse, provavelmente já teria sido automatizada, escalada e transformada em template copiável por aí.
O que existe são elementos que ajudam a construí-la. Mas nunca a garantem. Tenho uma obsessão pessoal por simplificar as coisas até o seu estado mais essencial. O mínimo viável da verdade. E quando penso em relevância em tempos incertos, duas palavras me vêm à cabeça: consistência e clareza.
Consistência é repetição. É permanecer. É aparecer de novo e de novo. Clareza é saber exatamente por que você está aparecendo. Porque a presença sem clareza vira ruído, e o mundo já está suficientemente barulhento. Isso vale para marcas, empresas, crenças e pessoas – especialmente agora que vivemos um tempo em que todos produzem conteúdo, opinião, imagens e histórias o tempo inteiro. Nunca foi tão fácil falar – e talvez nunca tenha sido tão difícil dizer algo que realmente permaneça. Mas queria sair um pouco do universo do Marketing e olhar para isso por outro lugar: a arte.
Há algum tempo, jornalistas e curadores vêm falando sobre uma espécie de esgotamento no mercado da arte contemporânea. Não apenas econômico, causado pelas instabilidades geopolíticas ou financeiras, mas também por um desgaste mais profundo: crise criativa, aceleração excessiva, ansiedade produtiva, exaustão mental, pressão por eficiência constante…
As tensões são familiares:
custo x entrega,
tempo x produtividade,
mercado x inspiração.
E talvez esse seja exatamente o dilema das marcas hoje:
resultado x construção,
volume x valor,
performance x significado.
No fundo, antes de sermos marcas, negócios ou estratégias, somos humanos tentando criar alguma coisa em meio ao caos. Existe um tecido invisível conectando todos nós: um mundo hiperestimulado, imprevisível, intoxicado de informação e com baixíssima tolerância ao silêncio. Por isso, talvez a crise de relevância não seja uma crise de marketing – talvez seja uma crise de clareza humana. Vivemos tão ocupados reagindo ao mundo que perdemos a capacidade de entender qual é, de fato, o nosso papel dentro dele.
E foi pensando nisso que me lembrei de uma experiência criada pela Marina Abramović chamada Cleaning the House. Uma imersão radical que pode durar duas semanas e envolve silêncio, jejum, ausência total de tecnologia, isolamento de estímulos e exercícios extremos de presença física e mental.
A proposta não é produtividade e nem inspiração – é limpeza. Como se, antes de criar qualquer coisa relevante, fosse preciso primeiro remover o excesso, o ruído, o vício em resposta imediata, a contaminação da opinião alheia ou a necessidade constante de performar. Um reboot humano. Nunca tive coragem de fazer essa imersão, mas já vivi experiências parecidas o suficiente para entender o valor delas. E às vezes penso em como seria interessante aplicar algo semelhante às marcas. Não literalmente, mas conceitualmente.
E se, por um momento, uma marca esquecesse os concorrentes, as trends, os KPIs trimestrais, o benchmark, a volumetria de conteúdo e a obsessão por alcance; e voltasse para uma pergunta brutalmente simples: se eu estivesse inaugurando meu mundo hoje, sobre o que eu gostaria de falar? Ou, talvez mais importante: estou a serviço de quê? Porque, para mim, relevância não é atenção, nem distinção e nem presença constante. Relevância é utilidade com significado. É clareza de papel, é entender para quem você existe, por que existe e qual vazio real você ocupa no mundo.
Imagem do Topo: Divulgação

