Por Simona Karen Miranda, COO da IMO Insights
Eu já. E não foi no auge do cansaço, nem depois de um grande fracasso. Foi logo no começo da minha trajetória trabalhando com pesquisa e dados, um campo que, na essência, tem o poder de transformar decisões, influenciar comportamentos e, em última instância, impactar a forma como as pessoas vivem. Talvez por isso, o incômodo tenha sido tão grande quando percebi que, em muitos lugares, “decidir com base em dados” significava apenas procurar números que confirmassem crenças já estabelecidas. A lógica parecia invertida e, mais do que isso, perigosa. Em vez de abrir caminhos, os dados eram usados para fechar questões.
Aquilo me incomodava demais. Porque, no fundo, colocava em xeque o próprio sentido do que eu fazia. Se a resposta já está dada, qual é o papel da pergunta? Foi nesse momento que pensei em desistir. Ainda bem que não fiz isso! Pois foi ali que comecei a observar melhor. Porque, apesar do ruído, existiam exceções. Poucas, é verdade. Mas poderosas. Pessoas genuinamente dispostas a questionar, a escutar, a considerar que talvez estivessem erradas. Gente interessada não em provar um ponto, mas em descobrir algo novo. E foi por essas pessoas que eu fiquei e estou aqui até hoje.
A verdade é que inovação raramente nasce do consenso. Ela nasce da resistência. Da tensão entre o que já sabemos e o que ainda não estamos dispostos a enxergar. É desconfortável. Dá mais trabalho. Mas é daí que surge o que realmente transforma.
Ao longo da minha trajetória, cada projeto que conseguiu, de fato, aproximar empresas de seus consumidores funcionou como um lembrete do porquê vale a pena continuar. Porque, quando isso acontece, algo muda. Decisões ficam mais humanas. Estratégias deixam de ser suposições bem elaboradas e passam a ter lastro real. E isso renova qualquer energia.
E, se existe um fator constante nessa jornada, ele não está nos processos, nem nas metodologias. Está nas pessoas. O que mais me motiva no dia a dia é estar cercada delas. Amigos, colegas, clientes, desconhecidos, não importa. O que importa é a intenção. Existe um tipo específico de energia em quem quer fazer melhor com o que tem. Em quem não se contenta com o básico. Em quem acredita que dá para entregar mais valor, mexer nas estruturas, provocar mudanças reais. Essas pessoas se reconhecem. E, quando se encontram, algo acontece.
Talvez por isso minha visão sobre o trabalho nunca tenha sido estática. Cada projeto desafiador me muda um pouco. Ajusta minha forma de enxergar. Reorganiza minhas certezas. Eu não acredito em uma versão final de entendimento; acredito em adaptação contínua, acredito na natureza da mudança. E isso pode soar instável para alguns. Na prática, é o que permite evoluir em um cenário em que tudo está em movimento. Em que o comportamento muda, a tecnologia avança e as respostas envelhecem rápido demais.
No fim, não foram os grandes marcos que moldaram minha trajetória. Foi a soma de pequenas provocações diárias. Conversas, dúvidas, erros, aprendizados. Um acúmulo constante de ajustes finos. Desistir, hoje, já não faz sentido. Não porque o caminho ficou mais fácil, até porque ele não ficou. Mas porque ficou mais claro. Trabalhar com pessoas, entender o que as move, traduzir isso em decisões melhores… isso ainda é uma das poucas formas reais de gerar impacto.
E, honestamente, ainda tem pouca gente disposta a fazer isso de verdade. Talvez seja exatamente por isso que ainda vale a pena.



