O lado emocional da inovação

Alexis Thuller Pagliarini

ÍNDICE

Na semana passada, estive no SPIW. A primeira edição do São Paulo Innovation Week já começou grande, gerando muito burburinho nas calçadas que unem a FAAP ao Estádio do Pacaembu (Mercado Livre Arena), que sediaram o evento.

Enquanto robôs e drones faziam as suas evoluções nos espaços, Daniel Goleman subiu ao palco para dizer algo que poucos esperavam ouvir num festival de inovação: o que mais importa para o futuro das lideranças não é tecnológico. É humano. Goleman, o psicólogo que popularizou o conceito de inteligência emocional nos anos 1990, estava cercado por telas, algoritmos e demonstrações de inteligência artificial.

E, justamente ali, naquele cenário saturado de tecnologia, sua mensagem soou como um contraponto necessário — e urgente. “A tecnologia é a ferramenta, mas a humanidade é a maestria”, disse ele ao público.

A frase resume com precisão o dilema que líderes enfrentam hoje. Vivemos um momento de aceleração sem precedentes. Sistemas de IA processam dados em segundos, automatizam tarefas complexas e tomam decisões com uma velocidade que nenhum ser humano consegue acompanhar. Diante disso, é tentador concluir que o diferencial competitivo futuro será tecnológico — quem tiver o melhor sistema, o modelo mais sofisticado, a plataforma mais inteligente.

Mas Goleman, e a ciência que ele representa, aponta para outra direção. As máquinas podem saber o significado de amor. Mas não podem amar. Essa distinção, aparentemente filosófica, tem consequências práticas profundas para quem lidera pessoas. A inteligência emocional — composta por autoconsciência, autogestão, empatia e habilidades sociais — não é um atributo soft, algo complementar às competências “reais” de gestão. É, cada vez mais, o núcleo do que torna um líder genuinamente eficaz. Jamie Dimon, CEO do JP Morgan, já orientou a geração Z nesse sentido: o foco absoluto deve ser o cultivo da inteligência emocional. Em um mundo onde tarefas técnicas são automatizadas, as habilidades de persuadir, guiar, ouvir e cuidar tornam-se os verdadeiros diferenciais de liderança.

Não é romantismo. É estratégia. Há ainda outro ponto que Goleman destacou no SPIW e que merece atenção especial: a criatividade. A inovação humana surge de um estado neurológico que a IA não consegue replicar — o relaxamento do devaneio, quando o cérebro faz sínteses inesperadas.

Saber reconhecer quando uma ideia nova é útil para a empresa ou para a ciência é algo que a máquina, presa ao que já foi mapeado, ainda não consegue validar com sensibilidade. O papel do líder, portanto, não é apenas executar — é reconhecer o ato criativo quando ele surge. A IA vai fazer tudo o que mandarem ela fazer. Mas ela não vai se tornar mais resiliente.

Ela não pode entrar no que chamamos de não-dualidade, que é ter consciência da consciência. Ela não é consciente. O tema central do SPIW — ‘O humano além do algoritmo’ — não é coincidência. Reflete uma percepção crescente no mundo dos negócios: quanto mais artificial se torna o ambiente, mais valioso é o que nos torna essencialmente humanos.

A questão, para os líderes que saíram do Pacaembu naquela semana, não é se a IA vai transformar suas organizações. Ela já está transformando. Confesso que a abordagem de Goleman não me surpreendeu. Já no ano passado, quando atuei como curador e palestrante no Enapro 2025, evento que reuniu publicitários na Bahia, estabelecemos como tema central ‘De humanos para humanos’ e minha palestra foi ‘O fator humano’. De lá para cá, o SXSW adotou as questões humanas como centrais, o que também aconteceu agora com o SPIW. Como afirma Goleman: “A IA chegou e é inexorável… e isso torna a inteligência emocional ainda mais importante do que nunca”.

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