Por Ricardo Esturaro, escritor, administrador de empresas e especialista em marketing, estratégia e sustentabilidade
Para os céticos do mercado que separam riscos climáticos de resultados financeiros, os números de um relatório da PwC traduzem a urgência: 55% do PIB mundial, o equivalente a US$ 58 trilhões, dependem diretamente da natureza. Se os ecossistemas colapsarem, mais da metade da economia global simplesmente para.
Esse cenário ganha contornos críticos quando institutos meteorológicos alertam para o risco de um “super” El Niño.
Com o fenômeno ameaçando mais uma vez desregular as temperaturas e chuvas em escala planetária, a degradação ambiental deixa de ser um debate abstrato e se consolida como um passivo financeiro real e um risco operacional crítico para qualquer corporação.
A prova de que esse risco não é hipotético ficou evidente na tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul. O fechamento do Aeroporto Internacional de Porto Alegre por meses estrangulou a malha logística, impactando profundamente a economia regional. No mesmo estado, as crises se alternam: dados da Farsul mostram que, de 2020 a 2024, as estiagens provocaram perdas de R$ 117 bilhões no campo, enquanto a indústria e os serviços do setor somaram prejuízos que ultrapassam R$ 319 bilhões.
Essa vulnerabilidade não é exclusividade do agronegócio. Quando chuvas fortes atingem a região metropolitana de São Paulo, levantamentos da FecomercioSP apontam que um único dia de alagamentos severos pode custar até R$ 110 milhões em perdas para o varejo. Sem a conservação das bacias urbanas e aportes em drenagem natural sustentável, o comércio paulista seguirá refém do clima.
Para interromper esse ciclo de prejuízos, as lideranças empresariais e governamentais precisam mudar a abordagem. É aqui que o maior aliado atende pelo nome de Soluções Baseadas na Natureza (NbS, na sigla em inglês), ações que utilizam a própria infraestrutura dos ecossistemas para resolver desafios de negócios e da população. Investir em NbS é puro cálculo de ROI.
O modelo tradicional foca na infraestrutura cinza (asfalto, ferro e concreto), que deprecia e exige manutenção constante. Já a infraestrutura verde, como o solo preservado para absorver água e florestas para regular o clima, se regenera e se valoriza, reduzindo custos operacionais no longo prazo.
Grandes indústrias já entenderam essa matemática. Empresas de bebidas e saneamento que investem na restauração de bacias hidrográficas reduzem gastos com tratamento químico, pois a própria natureza faz a filtragem da água. Da mesma forma, adotar a agricultura regenerativa ajuda as cadeias de suprimentos contra secas severas.
O que está claro é que a deterioração ambiental impõe à sociedade riscos materiais expressivos que continuam se acumulando. Dados do WWF apontam que as populações de vida selvagem, um termômetro da saúde dos ecossistemas, diminuíram quase 70% nas últimas décadas.
Esse declínio drástico afeta a disponibilidade de recursos básicos para a população e para o mercado. Diante dessa realidade, executivos precisam mapear as vulnerabilidades de suas operações para transformar riscos em oportunidades de inovação, espaço onde as NbS ocupam papel estratégico.
Para o ecossistema corporativo e de marketing, a conclusão é direta: tratar a natureza como um recurso infinito ou adereço institucional é um grave erro de alocação de capital.
O valuation e a perenidade das marcas dependerão diretamente da resiliência climática de suas cadeias de suprimentos. Integrar o capital natural ao planejamento estratégico não é filantropia; é a garantia de vantagem competitiva, valor de marca e sustentabilidade financeira.
Imagem do Topo: Divulgação
