Por Emmanuel Publio Dias, professor decano da ESPM, consultor associado da BALT-Tendências e inovação e coordenador do Young Lions Brazil
Além dos justificadíssimos elogios e reconhecimentos pelo trabalho do Sérgio Reis e sua contribuição ao melhor de nossa propaganda, é preciso ressaltar a figura humana deste gigante profissional. Muito maior do que sua trajetória simplesmente profissional. Quem teve o privilégio de trabalhar com ele, jamais esquecerá.
Por muitos, muitos motivos e um só, principal: ele expressava um carinho enorme por cada membro de sua equipe, direta ou indiretamente envolvido no processo de criação e produção publicitária.
O cuidado com essa relação começava com o processo de aproximação, conquista e contratação de seus funcionários, equipes e fornecedores. Antenado com o que de melhor se produzia no país, Sérgio sabia como atrair esses talentos. E essa conquista não ser resumia a uma oferta de boa remuneração.
No pacote estavam incluídas a possibilidade de trabalhar com um grande anunciante da época (o Banco Bamerindus), a certeza de contar com os melhores recursos técnicos e humanos da época e mais do que tudo, partilhar um ambiente de respeito ao criador, produtor, executor dos trabalhos e sobretudo a sensação de que todos faziam parte daquele sucesso, seja qual fosse a função, empresa ou cargo do profissional que estivesse no processo. O que incluía principalmente, um incentivo e apoio às novas ideias, novos processos, novas formas de trabalhar. As boas ideias e campanhas brotavam de todos os lugares, da agência, dos criadores, dos parceiros e claro, do próprio Sérgio, cuja intuição e conhecimento das pessoas sabia exatamente como tocá-las, emocioná-las e conquistá-las.
E foi assim que Curitiba tornou-se um radiante polo de produção publicitária nos anos 70 e 80. Redatores, diretores de arte, ilustradores, fotógrafos, diretores de cena, especialistas em marketing e mídia, trabalhando lado a lado com os profissionais da Umuarama (e mesmo de outras agências e clientes) revolucionaram o ambiente publicitário de Curitiba, o que se expressa claramente nas avaliações do Prêmio Colunistas Paraná.
Entre esses, é incontornável citar Tereza Souza e Walter Santos (Nossoestúdio) e Andrés Bukowinski (Abafilmes). Essa parceria rendeu centenas de jingles e spots de rádio (Nossoestúdio) e comerciais de TV (Abafilmes). Sem contar a contribuição de um certo George Remington, na verdade, pseudônimo de Washington Olivetto, cujo comercial criado para o Bamerindus conquistou um Leão em Cannes.
Os melhores trabalhos do Bamerindus, as melhores campanhas, as melhores peças, tinham no seu DNA estes dons e essa forma de trabalhar, tão identificadas com a forma como Sergio Reis via e se relacionava com as pessoas, principalmente com os brasileiros, cuja alma era um livro aberto para ele. Sergio era um apaixonado pelo Brasil, pelos brasileiros e certamente foi esse sentimento que o guiou para que o Banco Bamerindus se tornasse um dos mais icônicos anunciantes da história da propaganda brasileira.
Assim foi com a primeira grande campanha de sucesso do Banco, “Unindo o Brasil num grande abraço”. A campanha teve início em fevereiro de 1977, com um anúncio de página dupla assinado pela Umuarama (em tupi: Casa de Amigos), a house-agency do banco, publicado na revista Propaganda. Segundo o texto do anúncio (100% inspirado pelas crenças mais autênticas de Sérgio), a campanha tratava de “ouvir o som das cidades, sentir o sol, as praias, o gosto do pó e o cheiro de mato nas áreas rurais…compreender e relatar as aspirações de uma população cuja tez vai do branco lácteo dos saxões até o reluzente ébano dos filhos de África, passando por infinitas gerações, todas igualmente brasileiras”.
Com esse briefing em mãos, Tereza Souza percorreu o Brasil, auscultando o coração de centenas de cidades, para cada uma produzindo um spot diferente (sempre gravado com o rigor da voz de Ferreira Martins). Em vez de falar sobre a cidade, quem falava eram seus habitantes, histórias e culturas. Além dos textos de Tereza, a campanha teve ainda contribuições de textos de Fernando Pessoa, Manoel Bandeira, Vinícius de Moraes, Mario Quintana, Carlos Drummond de Andrade e participações especiais de Luiz Gonzaga, Dominguinhos.
O bom humor de Sérgio Reis e sua capacidade de inovar, a crença nos seus colaboradores e a inevitável ousadia criativa, resultaram em campanhas que ainda ressoam na memória coletiva dos brasileiros, “o tempo passa, o tempo voa e a poupança Bamerindus continua numa boa”, campanha que nos fazia cantar o jingle em ritmos de bolero, samba, xaxado etc. O talento de Bukowinsky fez do ator Toni Lopes o gordinho mais simpático da TV. Ahh…esse Bamerindus!
Sérgio era também um homem de opiniões e coragem para expressá-las. Seus valores e crenças no Brasil, no Paraná, no trabalho sério, na democracia eram também os valores que transcendiam à simples comunicação publicitária. Em 1994, pós-Plano Real, o país vivia um clima de confronto representado pelas candidaturas de Fernando Henrique e Lula. Veiculado às vésperas da eleição que definiria os destinos do país, o Bamerindus veiculou um comercial com tomadas aéreas de Brasília, enquanto Herbert Vianna (Paralamas do Sucesso) recitava o poema de Manoel Bandeira, “Santa Clara, clareai esses ares…clareai”.
Igualmente oportuna politicamente, a campanha “Credite no Brasil”, protagonizada pelo cantor/poeta Rolando Boldrin, iniciava (e continuou em vários comerciais) com uma declaração de fé no país. Em 1989, o Brasil vivia sua crise perfeita: inflação nas alturas (1972% !!!!), desabastecimento, recessão, a “década perdida”. Muita gente falava em “ir embora do país”. No comercial, Boldrin, num cenário neutro, contestava esse sentimento e ao final propunha: “um Brasil que prospera, que trabalha… …feito de gente que faz esse outro Brasil que eu tô falando. Brasileiro, o Brasil somos nós. Credite no Brasil”
Essa campanha deu origem a outra, memorável e inusitada: Gente que Faz. A ousadia de Sérgio convenceu a TV Globo a veicular, semanalmente, um comercial de 3 minutos no Jornal Nacional durante 4 anos. Eram minidocumentários, produzidos pela TV1, narrados por Gianfrancesco Guarnieri, em que brasileiros comuns, de pequenos agricultores a grandes empresários, narravam suas histórias de sucesso, fundadas principalmente em crença no país e no trabalho. Década antes da expressão ser formulada, o Bamerindus praticava o mais autêntico brand content.
A coerência entre valores, campanhas e posicionamento institucional permitiu ao Bamerindus acumular um capital simbólico excepcional. Esse patrimônio conferiu à marca legitimidade para ocupar um espaço que normalmente pertence às instituições políticas e culturais: o de interpretar o Brasil e dialogar com os brasileiros sobre seu futuro. Não se tratava apenas de vender serviços bancários. O Bamerindus havia conquistado um mandato simbólico, construído ao longo de anos por uma comunicação consistente, profundamente identificada com a visão de mundo de Sérgio Reis
E foi assim que ele conseguiu um feito inédito na história da propaganda brasileira: unir o Brasil num grande abraço discursivo, com criatividade, ousadia, humor e compromissos políticos perfeitamente identificados.



