A década do cérebro e da neurotecnologia

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A humanidade assiste a uma onda de geração de conhecimento sobre o nosso cérebro que ganhou volume incomum a partir da década de 1990. A “década do cérebro”, como foi chamada, sequenciada neste novo século, produziu mais informações do que havia sido possível amealhar nos mais de cem anos anteriores, desde quando o espanhol Santiago Ramón y Cajal anunciou ao mundo o papel dos neurônios como unidades discretas do cérebro, marcando o início da neurociência moderna. Todo esse interesse debruçado sobre um pequeno e mágico órgão, com apenas 2% do nosso peso, porém consumidor voraz de cerca de 20% da nossa energia. O mais complexo objeto material do universo conhecido, como nos lembra o Prêmio Nobel de Medicina Gerald Edelman.

A neurotecnologia, o maquinário da usina desse conhecimento, é o arsenal de ferramentas disponíveis para especialistas e pesquisadores entenderem e influenciarem o comportamento do nosso cérebro e do nosso sistema nervoso. Ela abriu a janela para que pudéssemos observá-los em ação. Um marco importante nesse percurso foi, em agosto de 1980, a primeira ressonância magnética (MRI) do corpo inteiro de um paciente na Escócia, um avanço comparável ao que representara a descoberta dos raios X. Em meados da década seguinte viria o passo decisivo, as imagens por ressonância magnética funcional (fMRI), que registram a imagem do cérebro em atividade antes, durante e após determinados estímulos, mostrando a ativação das regiões envolvidas com as diferentes tarefas. Há pouco mais de duas décadas só se podia examiná-lo abrindo o crânio de pacientes com lesões severas ou já falecidos, que juntamente com as cobaias alimentavam as pesquisas da época.

A expansão da neurotecnologia, que além das pesquisas envolve a produção de medicamentos e técnicas de tratamento voltadas para os mais de 2 bilhões de pessoas que sofrem de distúrbios neurológicos, psiquiátricos e de lesões no sistema nervoso, tem sido veloz desde então. Os aparelhos são cada vez mais poderosos, viabilizando uma onda sem precedentes de pesquisas na área. Foi assim que se começou a decifrar muitos enigmas da nossa mente. Graças a eles, no ano 2000, em um laboratório na Universidade Stanford, cientistas constataram, perplexos, que simples imagens de dinheiro em espécie despertavam reações cerebrais muito mais intensas do que fotos horripilantes de crimes ou de vítimas de acidentes.

 Uma revolução global

Hoje, contam-se aos milhares os neurocientistas e em bilhões os investimentos que lhes são destinados, dando lugar à revolução em curso, que geograficamente assume contornos mundiais, em um esforço cada vez mais multidisciplinar e ambicioso. Pelo peso econômico e a tradi- ção de pesquisas, é natural que nos Estados Unidos ela adquira maior destaque e visibilidade. As dotações à pesquisa aprovadas pelo Congresso na década de 1990 e o apoio do presidente Barack Obama, em 2013, à Iniciativa BRAIN (Brain Research Through Advancing Innovative Neurotecnologies), divulgada por ele como “o próximo grande projeto americano” — reunindo órgãos federais, fundações, institutos, universidades e a indústria —, impulsionaram esse movimento.

Comparado ao Projeto Genoma Humano, com investimentos em torno de US$ 1,5 bilhão na década de 1990, a pesquisa BRAIN é fruto da cooperação entre neurocientistas e nanocientistas. Entre os participantes da pesquisa, Cornelia Bargmann, da Universidade Rockefeller, e William Newsome, da Universidade Stanford, buscam identificar como as células individuais e os complexos circuitos neurais interagem na velocidade do pensamento. A Universidade Columbia também deu um passo promissor: US$ 200 milhões gastos na construção da Mind, Brain and Behaviour Initiative, um esforço para estreitar os laços entre neurocientistas e os tantos departamentos de Ciências Humanas, assim como as escolas de Administração e Direito. O Massachusetts Institute of Technology (MIT) recebeu nos últimos anos US$ 350 milhões em doações para construir seu McGovern Institute for Brain Research. Na Universidade da Califórnia, o neurocientista Michael Gazzaniga foi convidado a dirigir um projeto multimilionário que avalia o impacto da neurotecnologia no sistema legal, reunindo pesquisadores e especialistas de mais de duas dúzias de universidades americanas. E há outras dezenas de iniciativas semelhantes no país. O orçamento anual para pesquisas na área do cérebro e do sistema nervoso do Instituto Nacional de Saúde, nos EUA, prevê investimentos de US$ 4,5 bilhões entre 2016 e 2028. E o financiamento dos investidores privados nas pequenas start-ups do setor teve um aumento em torno de 300% nos últimos anos.

A onda se espraia em diferentes países nos diversos continentes. Israel, Austrália, Nova Zelândia e Japão desenvolvem pesquisas cerebrais inéditas. No Brasil, há quatro centros de referência atuando: na Universidade de São Paulo, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Na Europa, € 1 bilhão financiam um projeto liderado pelo pesquisador Henry Markram visando a criar uma simulação do cérebro humano com uma consciência o mais próximo possível da nossa. Para a necessária representação do funcionamento dos neurotransmissores e dos trilhões de conexões sinápticas foram convocados especialistas em computação, desafiados a conceber equipamentos cinquenta vezes mais velozes do que os mais rápidos supercomputadores atuais. A dimensão inédita da iniciativa financiada pela Comissão Europeia somada ao envolvimento de um consórcio de 112 instituições deu lugar a acesas polêmicas, mas o projeto segue em frente. Na China, o investimento assume as proporções da economia do país. Entre outras, eles conduzem atualmente uma pesquisa neurogenética com uma amostra de tamanho inusitado, nada menos que 100 mil pares de gêmeos.

E a investigação multidisciplinar alcança o mais amplo escopo da atividade humana. No Canadá, na Universidade de Montreal, uma equipe formada por músicos, psicólogos e neurocientistas trabalha em um centro chamado BRAMS — Laboratório Internacional para Pesquisa de Cérebro, Música e Som —, no qual minuciosamente acompanham, de um lado, como o córtex auditivo dos ouvintes reage à música, e, de outro, como ela se desenvolve no cérebro dos próprios músicos.

Como resultado de todo esse esforço, o conhecimento progrediu de forma impressionante, tendo alcançado patamares até pouco tempo atrás inimagináveis. Para se ter uma ideia muito resumida do escopo desse avanço, os cientistas conseguiram desde entender como os genes dão origem às moléculas do cérebro até mesmo simular em computadores alguns conjuntos de neurônios. Esse processo segue em marcha batida para esclarecer o que o Prêmio Nobel de Medicina Eric Kandel chama de “o desafio final”: compreender a base biológica da consciência.

Um grande número de atividades humanas já se beneficiou da revolução em curso. A psicologia e a psicanálise foram as primeiras. Em outras áreas, uma vez devidamente processados os inputs, novas veredas já foram codificadas e os galhos da árvore vão se multiplicando, a exemplo da neuroeconomia, das neurofinanças, do neurodireito, da neuroeducação, da neuroética, da neuropolítica, do neuromarketing e da neuropropaganda.

Além disso, aguardam-se ainda, em um futuro próximo, novos avanços da neurociência social. Ela investiga como os sistemas neuroendócrinos ajudam a modular os comportamentos sociais da solidariedade à agressão. São eles que dão lugar à empatia, o magneto aglutinador dos humanos, única espécie caracterizada pela “ultrassociabilidade”, capaz de desenvolver cooperação ampla e regular entre grandes grupos geneticamente heterogêneos. Tais avanços irão contribuir na elaboração de melhores políticas públicas, no planejamento e na atmosfera de melhores locais de trabalho e na formatação de melhores ambientes domésticos. Em suma, vão ajudar a fazer uma sociedade melhor. ”

*Autores do livro “Neuropropaganda de A a Z”, lançamento da Editora Record

 

 

 

 

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