“Empresas precisam compreender que comunidade exige respeito a quem já constrói a cultura”, diz Bárbara Brito

O Jantar Preto, projeto presidido por Bárbara Brito, será realizado hoje, em São Paulo, e ela fala ao propmark sobre o impacto do projeto para a comunicação e o marketing
Bárbara Brito | Imagem: Fabiano Vieira

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O Jantar Preto, projeto presidido por Bárbara Brito, será realizado hoje (05) em uma edição especial na Casa Chandon, em São Paulo, em parceria com a Chandon. O encontro reúne convidados para celebrar trajetórias, conexões e o protagonismo de profissionais negros em uma noite dedicada à valorização da presença preta em espaços de prestígio.

À frente do Jantar Preto desde 2024, Bárbara Brito acompanha a evolução do projeto criado por Levis Novaes e Kevin David. Criado em 2023, o Jantar Preto já realizou encontros em São Paulo, Salvador, Brasília e Rio de Janeiro. Ao longo de sua trajetória, o projeto reuniu personalidades como Regina Casé, Seu Jorge, Jorge Aragão, Astrid Fontenelle, Juliana Alves, BK, Lennon, Erika Januza, Bella Campos, Juan Paiva, Aline Borges, Kenya Sade e Tasha & Tracie.

A iniciativa propõe criar espaços de encontro e reconhecimento para profissionais negros, ocupando ambientes tradicionalmente associados às elites e ampliando a visibilidade dessas trajetórias. A escolha dos locais também integra a proposta do projeto, que busca ressignificar a presença negra nesses espaços.

Para Bárbara, esse movimento também dialoga com sua própria trajetória na criação de conteúdo, marcada pela busca por referências sobre negócios, carreira, dinheiro e empoderamento sob a ótica de pessoas pretas. Nesta entrevista para o propmark, ela fala sobre os desafios de transformar representatividade em participação efetiva, o papel das marcas na construção de comunidades e a importância de colocar profissionais negros nos espaços de criação, estratégia e tomada de decisão. Também aborda os próximos passos do Jantar Preto e como iniciativas como o projeto podem contribuir para transformar a comunicação, o marketing e o imaginário social brasileiro.

O que motivou a criação do Jantar Preto e qual lacuna você identificou no mercado e na sociedade naquele momento?

Bárbara Brito: A motivação principal nasce dessa necessidade de ocupar e ressignificar os espaços onde pessoas pretas historicamente não tiveram acesso. O Jantar Preto foi fundado por Levis Novaes e Kevin David. Nasceu dessa premissa: quando eu comecei a criar conteúdo na internet, identifiquei essa falta de referência sobre negócios, mercado de trabalho, dinheiro e empoderamento sob a ótica de pessoas pretas. O que se conectou muito bem com o Jantar Preto, que comecei a presidir em 2024, foi uma urgência de criar plataformas onde possamos ser protagonistas em ambientes de luxo, subvertendo expectativas e provando que também pertencemos a esses lugares.

Quais são os principais valores que sustentam a comunidade do Jantar Preto e como eles orientam as decisões do projeto?

Bárbara Brito: Nossos valores centrais são a construção de um olhar diferenciado sobre a realidade e os negócios pretos, a diversidade, a produtividade e a inclusão. Acredito que o verdadeiro senso de comunidade se forma quando as pessoas se conectam, se identificam e se apoiam mutuamente, porque é essa conexão que gera confiança. Esses valores orientam o Jantar Preto na missão de reconfigurar espaços e transformar o imaginário social. Um reflexo claro disso é o meu casamento com o Levi e a edição do Jantar Preto realizada no icônico Copacabana Palace. Ocupar um hotel com mais de um século de história serve como um poderoso símbolo aspiracional, mostrando para outras pessoas pretas que merecemos e podemos acessar lugares como esse que antes pareciam distantes.

Aline Borges, Bella Campos, Jonathan Ferr, Jorge Aragão e Fernanda Aragão durante o primeiro Jantar Preto de 2026 no Copacabana Palace | Imagem: Fabiano Vieira

Em que momento você percebeu que havia ali também uma comunidade com potencial de gerar impacto para além do evento? Quais conexões ou desdobramentos gerados a partir do Jantar Preto mais representam esse potencial de transformação da comunidade?

Bárbara Brito: Essa força ficou nítida quando percebi que o projeto era um hub capaz de conectar talentos e fomentar a economia criativa, pois o impacto real está em moldar o imaginário social e corporativo. Ao reunir criadores, artistas, empresários e profissionais negros de várias partes do país, criamos um espaço fértil para aprendizado, troca de ideias e parcerias de longo prazo. O desdobramento mais claro é observar como essas conexões resultam em novos negócios e projetos futuros, expandindo diretamente a influência da nossa comunidade. Outro fator fundamental de transformação é a nossa capacidade de atrair marcas dispostas a investir financeiramente no projeto, o que fomenta o mercado. Esse movimento consolida o nosso empoderamento coletivo e reafirma o nosso papel como protagonistas em cenários de prestígio, desafiando estereótipos e expectativas convencionais.

O Jantar Preto passou a despertar o interesse de marcas. O que uma empresa precisa compreender antes de se aproximar de uma comunidade como essa?

Bárbara Brito: Primeiro, as empresas precisam compreender que comunidade exige respeito a quem já constrói a cultura, o que demanda uma aproximação sem finalidade puramente comercial. É um erro grave tentar ditar as regras, usar a estética negra de modo superficial ou enxergar a comunidade apenas como um recurso visual, sem a intenção de dialogar e contribuir concretamente com essa realidade. É importante entender que estar na cultura exige constância, coerência e diálogo real. Além disso, a marca precisa reconhecer que a diversidade não deve se limitar à representatividade na porta de entrada. Precisamos que a nossa potência seja valorizada e que sejamos ativamente escutados nas salas de tomada de decisão, longe do estigma de falar apenas sobre recortes raciais.

Na sua experiência, quais tipos de parceria conseguem gerar mais valor para a comunidade e, ao mesmo tempo, para a marca?

Bárbara Brito: As parcerias que mais geram valor são aquelas fundamentadas na transparência, na sinceridade e na real capacidade de escuta contínua. Para a marca, isso entrega insights riquíssimos e humanizados, algo bem mais difícil de alcançar com uma pesquisa demográfica, por exemplo. Para a comunidade, o maior ganho acontece quando a parceria permite que os profissionais criem e se expressem a partir de suas realidades e de sua própria potência, sem ficarem restritos a efemérides. Na edição da Casa Chandon, por exemplo, temos uma experiência 360º que engloba a presença do squad negro da marca, a ativação desse espaço e de experiências que refletem a alma da Chandon. Esse tipo de parceria traz identidade e, no longo prazo, mostram a coerência da marca frente a todas as suas ações institucionais.

E o que as marcas ainda não entenderam sobre o valor de comunidades e relações de longo prazo?

Bárbara Brito: As marcas ainda estão entendendo a construção de comunidades como uma verdadeira estratégia de crescimento, capaz de influenciar desde o desenvolvimento do produto até a fidelização do cliente. Hoje não se disputa apenas engajamento, disputa-se pertencimento. Muitas marcas ainda não perceberam que consumidores que sentem pertencimento têm um valor de longo prazo maior, compram com mais frequência, permanecem fiéis por mais tempo e recomendam a marca de forma espontânea, reduzindo os custos de aquisição. Quando as empresas agem sem coerência, sem constância e não escutam de verdade, a conexão se torna passageira e elas perdem a chance de criar o lugar para onde as pessoas realmente fazem questão de voltar.

Como você enxerga a evolução do mercado em relação à presença de pessoas negras em posições de liderança, criação e tomada de decisão na comunicação e no marketing?

Bárbara Brito: Enxergo que vivemos um momento de conquistas que ainda precisam ser ampliadas e reafirmadas. As estruturas internas ainda precisam mudar para garantir a permanência e a ascensão dessa base altamente qualificada, algo que depende diretamente de maior envolvimento e responsabilização das lideranças atuais.

Ainda existe uma tendência de as marcas enxergarem comunidades negras apenas pelo viés de representatividade ou consumo? O que falta para avançar dessa perspectiva?

Bárbara Brito: O mercado frequentemente reconhece o poder cultural e econômico da negritude e tem grandes oportunidades para promover uma transformação genuína e estrutural em parceria conosco. Muitas campanhas ainda retratam a mulher negra de maneira limitada, e o nosso papel é ajudar a expandir essa visão. Para avançarmos juntos, o caminho ideal é somar forças para ir além da representatividade de elenco e colocar intencionalmente mulheres e homens negros nos times de criação, estratégia e alta liderança. Somente com a presença de times plurais conseguiremos abraçar a complexidade e a vivência real do Brasil.

Primeiro Jantar Preto de 2026 no Copacabana Palace | Imagem: Fabiano Vieira

Como você imagina a evolução do Jantar Preto nos próximos anos? A ideia é ampliar a comunidade, criar novas plataformas ou aprofundar as conexões existentes?

Bárbara Brito: A ideia principal será sempre aprofundar nossas conexões, consolidando nosso espaço de poder e buscando novas formas de acessar e ocupar o sistema. Queremos continuar desmistificando não só o mundo corporativo mas também a economia criativa como um todo, para quem nunca teve esse acesso, mostrando que falar de diversidade é também falar de negócio e de prosperidade. Imagino os próximos passos com muitas expansões, realizando mais edições e levando a experiência para mais lugares, assim como já passamos pelo Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Brasília. É fundamental fortalecer essa capacidade de validar nossas histórias e garantir que mais pessoas pretas acessem, consumam e ressignifiquem locais de poder e prestígio que antes pareciam fora de alcance.

E como iniciativas como essa podem desempenhar no futuro do marketing e da comunicação no Brasil?

Bárbara Brito: Essas iniciativas mostram ao mercado que apostar na diversidade não é apenas uma questão social, mas também de negócio, rentabilidade e conexão profunda. A publicidade tem um poder pedagógico gigante na nossa sociedade. Quando nós mesmos contamos nossas histórias e mostramos profissionais de diversas áreas, bem-sucedidos e potentes, combatemos o racismo e criamos novas referências para a juventude.

Bruna Magatti
Bruna Magatti
Editora Assistente
brunam@propmark.com.br

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