Processo de retirada dos telefones públicos marca a transição regulatória da telefonia e resgata campanhas que transformaram o equipamento em protagonista da publicidade

A retirada dos orelhões das ruas brasileiras marca o encerramento de um dos símbolos mais reconhecíveis da história da comunicação no país. Com o fim das concessões da telefonia fixa em dezembro de 2025 e a migração do modelo para o regime de autorizações, a Anatel estabeleceu a extinção gradual dos Telefones de Uso Público (TUPs), processo que deve ser concluído até o final de 2028, com exceção de localidades onde não há cobertura de telefonia móvel.

Lançados nacionalmente no início da década de 1970, os orelhões chegaram a somar mais de 1,5 milhão de unidades em operação e desempenharam papel central no cotidiano da população por décadas. Criados pela arquiteta e designer brasileira Chu Ming Silveira, tornaram-se referência de design urbano e ponto essencial de contato em um período anterior à popularização do celular.

Chu Ming Silveira foi a arquiteta por trás do orelhão | Imagem: Cortesia de Orelhao.arq.br

Com a mudança regulatória, operadoras iniciam o processo de desligamento e retirada dos aparelhos. Em comunicado, a Vivo afirma que “manterá até o final de 2028 os TUPs ativos em localidades atendidas exclusivamente pela operadora, garantindo atendimento à população dessas específicas localidades, ainda que seu uso seja praticamente inexistente”, em conformidade com as regras da agência reguladora, e que a retirada dos aparelhos seguirá “um cronograma baseado em critérios operacionais, de segurança e de conformidade regulatória”.

Para além da transição tecnológica, o desaparecimento gradual dos orelhões também reabre discussões sobre memória urbana e o papel desses equipamentos na construção de narrativas de marca ao longo das últimas décadas.

A seguir, o propmark relembra campanhas históricas que transformaram o orelhão em protagonista da publicidade brasileira.

‘Morte do Orelhão’, da Telesp — 1979

Criada pela agência DPZ para a então Telesp, a campanha ‘Morte do Orelhão’ surgiu como resposta ao vandalismo recorrente contra os telefones públicos no fim dos anos 1970. O filme, veiculado em 1979, ganhou Ouro no 5º Anuário do Clube de Criação de São Paulo, em 1980, e entrou para a história da publicidade brasileira ao utilizar efeitos especiais considerados avançados para a época, desenvolvidos por Domingos Utimura.

‘Super Orelhão’, da Oi — 2013

Em 2013, a Oi transformou o orelhão em plataforma interativa para uma ação voltada ao Dia das Crianças, no Rio de Janeiro. Instalado em frente ao Oi Futuro Ipanema, o ‘Super Orelhão’ convidava crianças a interagir com um telefone público customizado, escolhendo um super-herói e participando de um jogo projetado em tempo real em uma parede interativa. A dinâmica convertia a performance dos participantes em doações de brinquedos para instituições sociais.

‘Orelhão com Interurbano’ — Anos 1970

Veiculada na década de 1970, a campanha ‘Orelhão com Interurbano’ buscava popularizar o uso do telefone público para chamadas interurbanas, destacando a possibilidade de ligações a cobrar por meio do código 107. Estrelada pelo ator Antônio Abujamra, a comunicação dialogava com um período em que o acesso à telefonia ainda era restrito e o orelhão cumpria papel central na conexão entre cidades.

‘Fala com ele, Elizabeth!’, da Telerj — Anos 1970

Outro clássico da publicidade associada aos telefones públicos é o filme da Telerj marcado pelo bordão ‘Fala com ele, Elizabeth!’. Exibido nos anos 1970, o comercial entrou para o repertório cultural da época ao retratar situações cotidianas mediadas pelo uso do orelhão.

‘Vivo Call Parade’ — 2012

Em 2012, a Vivo lançou o projeto ‘Vivo Call Parade’, iniciativa que propôs a revitalização de orelhões por meio da arte urbana em São Paulo. A ação convidou artistas a intervir nos aparelhos espalhados pela cidade, transformando-os em peças visuais integradas ao espaço público. Em um momento em que os celulares já haviam se consolidado como principal meio de comunicação, o projeto tinha o objetivo de reposicionar o orelhão como suporte cultural e elemento simbólico da paisagem urbana.

‘Vivo Call Parade’, realizado em 2012 | Imagem: Divulgação
Imagem do topo: Reprodução