Negócio de cerca de US$ 110 bilhões reacende debate sobre concentração no streaming e impactos para produção e publicidade
A aquisição da Warner Bros. Discovery (WBD) pela Paramount encerra uma das disputas mais comentadas da indústria global de entretenimento nos últimos meses. Avaliada em cerca de US$ 110 bilhões, a operação coloca sob o mesmo grupo dois estúdios gigantes no mercado, mas a fusão reacende o debate sobre concentração de mercado e provoca reflexões sobre os impactos para produção e publicidade.
O processo começou a ganhar tração ainda em novembro de 2025, quando a Netflix passou a avaliar a aquisição da divisão de estúdios e streaming da Warner Bros. Discovery. A negociação permitiria à Netflix assumir as franquias como Harry Potter e DC Comics, além de reforçar seu catálogo com produções da Warner. Em dezembro, a plataforma chegou a anunciar um acordo definitivo para comprar os ativos de estúdios e streaming da WBD por US$ 72 bilhões, valor que chegaria a cerca de US$ 82,7 bilhões, incluindo as dívidas.
No entanto, ao longo das negociações, outros grupos passaram a disputar os ativos da Warner, e a disputa se intensificou quando a Paramount apresentou uma nova oferta avaliada em cerca de US$ 110 bilhões, incluindo dívida, equivalente a US$ 31 por ação da WBD. O conselho da companhia considerou a proposta superior, especialmente pela inclusão de uma taxa de rescisão regulatória de US$ 7 bilhões, caso o negócio fosse barrado por autoridades.
Diante do novo cenário, a Netflix optou por não elevar sua proposta e saiu da disputa.
Assinantes e audiência
Para especialistas, a operação reflete um movimento de reorganização estrutural do mercado de entretenimento, impulsionado pela disputa por audiência no streaming. Márcio Rodrigo, professor do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, compara o impacto da operação ao movimento realizado pela Disney quando adquiriu a Fox em 2017.
Segundo ele, a operação reforça uma tendência de concentração no setor, impulsionada pela competição cada vez mais ampla por atenção do público.
“Esse movimento ocorre em um cenário em que plataformas como YouTube e TikTok também disputam a atenção do público. As grandes empresas de mídia buscam escala para enfrentar essas novas formas de concorrência”, diz.
Um dos principais movimentos estratégicos previstos após a fusão é a integração entre HBO Max e Paramount+, o que poderia resultar em uma plataforma com mais de 200 milhões de assinantes. A fim de comparação, mesmo com a junção, o novo serviço ainda ficaria atrás da Netflix, que hoje soma cerca de 325 milhões de assinantes globalmente.

“Mais do que o número de assinantes, a disputa hoje é por fidelização. As plataformas tentam evitar que o público assine apenas para ver um conteúdo específico e depois cancele. Ter um catálogo robusto ajuda a manter o usuário por mais tempo”, explica Márcio Rodrigo.
O professor também destaca que a fusão pode pressionar concorrentes a ampliar investimentos em produção própria. “Isso deve gerar impacto nas concorrentes, especialmente na Netflix, que pode ter de investir ainda mais em conteúdo original para manter sua base de assinantes” diz ele.
Impactos no audiovisual e na publicidade
A consolidação também deve gerar reflexos na produção audiovisual e no mercado publicitário, especialmente diante da crescente adoção de modelos de streaming financiados por publicidade.
Para Marianna Souza, presidente executiva da Associação Brasileira da Produção Audiovisual (Apro), fusões desse porte costumam ampliar o poder de negociação dos grandes conglomerados.
“Fusões desse porte normalmente aumentam o poder de negociação dos grandes conglomerados, porque concentram catálogo, tecnologia, dados de audiência e capacidade de investimento em um mesmo grupo. Isso tende a tornar as negociações mais estruturadas e estratégicas”, comenta.

Ao mesmo tempo, ela avalia que o crescimento das plataformas também pode abrir novas oportunidades para produtores independentes. Isso porque, segundo a executiva, “plataformas e estúdios que se tornam maiores precisam alimentar um volume crescente de conteúdo, especialmente em streaming, publicidade e branded entertainment. Isso amplia a demanda por produção qualificada e por parceiros capazes de entregar projetos em diferentes formatos e mercados”.
Marianna avalia ainda que o movimento aproxima os streaming do mercado publicitário. “O streaming caminha rapidamente para modelos híbridos ou financiados por publicidade. Isso cria novos espaços para narrativas de marca, integrações e formatos audiovisuais inovadores, aproximando ainda mais o mercado publicitário do ecossistema do entretenimento”
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