Dados e relatos de lideranças indicam por que o cuidado emocional deixou de ser pauta pontual e passou a integrar a gestão das empresas
O Brasil ocupa hoje a segunda posição no ranking mundial de casos diagnosticados de síndrome de Burnout, segundo a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt). Também conhecida como síndrome do esgotamento profissional, a condição é caracterizada por exaustão extrema, estresse e esgotamento físico decorrentes de contextos de trabalho desgastantes, marcados por excesso de responsabilidades, alta competitividade e metas consideradas difíceis de cumprir. A principal causa está diretamente associada ao excesso de trabalho, mas também a ambientes onde o profissional sente que não dispõe de recursos, autonomia ou capacidades suficientes para atender às exigências impostas de forma contínua.
Dados da Anamt indicam que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros convivem com sintomas da síndrome. Reconhecida como doença ocupacional, ela passou a integrar a classificação oficial da Organização Mundial da Saúde em 2022, reforçando seu impacto no mercado de trabalho e ampliando a responsabilidade das organizações sobre práticas de prevenção, cuidado e gestão de riscos psicossociais.
Todos os anos, o mês de janeiro concentra a campanha do ‘Janeiro branco’, voltada à conscientização sobre saúde mental. O período não passa despercebido pelo mercado, afinal o início do ano costuma coincidir com a retomada intensa das atividades corporativas, a definição de metas, revisões de performance, reorganizações internas e a pressão por resultados.
Trata-se de um momento em que expectativas se acumulam, agendas se sobrepõem e o ritmo acelerado tende a se impor rapidamente, criando um cenário propício para o aumento de ansiedade, estresse e sobrecarga emocional. Pesquisas recentes ajudam a dimensionar esse cenário.
Um levantamento conduzido por Paul Ferreira, vice-diretor do Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas (NEOP) da FGV EAESP, em parceria com as empresas Talenses e Gympass, aponta que 43% dos respondentes afirmam estar em situação de sobrecarga de trabalho. Outros 31% relatam sofrer pressão direta por resultados e metas, evidenciando como a lógica de desempenho continua a ser um dos principais vetores de tensão no ambiente corporativo.
O estudo também detalha quais fatores agravam o desgaste emocional no dia a dia das organizações. Entre os entrevistados, 30% dizem sentir que precisam estar disponíveis o tempo todo, enquanto o mesmo percentual aponta falta de reconhecimento. A ausência de empatia ou apoio da liderança direta aparece para 27% dos respondentes, ao passo que 22% relatam dificuldade de desempenhar plenamente suas funções. Já 17% mencionam falhas de comunicação com a liderança, um dado que reforça o papel das relações e da gestão na experiência emocional do trabalho.
Nas agências
No mercado de comunicação, esse debate ganha contornos ainda mais específicos. Pressão criativa, prazos curtos, múltiplas demandas simultâneas, concorrência intensa e a cultura de disponibilidade constante tornam o setor particularmente vulnerável ao esgotamento emocional. Diante desse cenário, a reportagem do propmark convidou agências a compartilharem o que estão fazendo para cuidar da saúde mental e emocional de seus times neste início de 2026, desde as iniciativas pontuais até políticas estruturais de longo prazo.
Na Africa Creative, Carla Guimarães Espindola, VP de pessoas e comunicação, explica que o ‘Janeiro branco’ é encarado como um ponto de partida para estabelecer o tom do cuidado ao longo do ano. Em 2025, a agência investiu na construção de diálogo por meio do programa ‘Saúde janeiro a janeiro’, além de iniciativas voltadas à integração e ao bem-estar físico, como grupos de corrida e encontros semanais fora do ambiente do escritório.
Em 2026, a estratégia avançou para a estruturação tecnológica do cuidado, com a consolidação de uma parceria com a Care Plus e a implementação de uma nova plataforma de benefícios integrados. “O objetivo é oferecer autonomia ao colaborador, garantindo acesso rápido e desburocratizado a suporte psicológico e cuidados físicos, entendendo que o bem-estar mental é indissociável do equilíbrio biológico e social”, afirma.

Na Monks, Caroline Bitar, people director, relata que a agência adota uma estrutura de benefícios voltada ao bem-estar integral, combinando acesso 24 horas a profissionais de saúde, programas de acolhimento e iniciativas de inclusão. A flexibilidade aparece como um pilar central da cultura da empresa, com ‘momentos off’ para cuidados pessoais ou familiares, além de monitoramento contínuo por meio de pesquisas de satisfação e engajamento, que ajudam a mapear riscos e orientar decisões de gestão.

No Publicis Groupe, Rejane Romano, diretora de ESG, destaca iniciativas permanentes como a plataforma LionCare, que oferece telemedicina e terapia online, além de parcerias com Wellhub e Totalpass. Para 2026, o grupo direciona atenção especial à saúde financeira, reconhecendo sua influência direta sobre o bem-estar emocional. “Nosso foco será apoiar os colaboradores no cuidado com a saúde financeira, reconhecendo seu impacto direto na saúde mental”, conta.

Na Lápis Raro, Caio Gambini, head de pessoas & cultura, aponta que a agência aposta em escuta contínua por meio de uma plataforma interna que monitora o clima da equipe, além da capacitação de lideranças para identificar e agir diante de cenários de sobrecarga.

Já na TV1, Cassia Soumaili, diretora de recursos humanos, ressalta que o ‘Janeiro branco’ não é tratado como evento isolado, “mas como uma oportunidade para reforçar conversas que já acontecem o ano todo”. Segundo ela, a organização do fluxo de trabalho, a revisão de processos e a redução de ruídos operacionais têm sido fundamentais para minimizar os gatilhos de ansiedade no cotidiano da agência. Para o primeiro dia presencial do ano, a equipe foi recebida com um café da manhã de comemoração e “um livro de reflexões”.
Para além das ações concentradas no início do ano, as agências destacam políticas estruturais de longo prazo como fator determinante para a sustentabilidade do cuidado.
Na Africa Creative, a política de bem-estar evoluiu de ações pontuais para o que a agência chama de “ecossistema de suporte”, com acesso contínuo a uma rede de especialistas e recursos disponíveis conforme a necessidade dos colaboradores. “Saímos de um modelo estritamente consultivo para um formato de suporte contínuo e acessível na palma da mão, garantindo que o acolhimento esteja disponível no momento exato da necessidade, com a agilidade que o nosso mercado exige”, sintetiza Carla.
Na Monks, o bem-estar é tratado como política permanente, organizada em ecossistemas que integram saúde emocional, física e segurança financeira, entendendo que esses fatores se retroalimentam. “Esse conjunto de ações é monitorado anualmente por meio de pesquisas de satisfação e engajamento, que permitem à empresa identificar riscos e traçar planos de ação personalizados. Ao unir segurança financeira com suporte especializado e escuta ativa, a empresa promove um ambiente psicologicamente seguro e adaptado às necessidades individuais de cada talento”, reflete Caroline.
No Publicis Groupe, treinamentos para lideranças, grupos de afinidade e programas como ‘Working with cancer’ compõem uma agenda contínua, que busca criar ambientes mais seguros e acolhedores. Rejane explica que, em complemento a essas ações, cada agência do grupo tem autonomia para desenvolver as suas iniciativas específicas.
A Lápis Raro destaca benefícios estruturados e políticas internas voltadas à equidade. “Também construímos uma política interna que aumenta o benefício de educação continuada quando este é aplicado a pessoas que pertencem a grupos minorizados”, ressalta Gambini.
Na TV1, práticas como ‘Short friday’, day off no aniversário, políticas de trabalho remoto temporário para cuidado com familiares e o monitoramento constante do clima organizacional são implementadas seguindo a ideia de que “o cuidado não se restringe ao RH, mas permeia decisões estratégicas de liderança”.
Para Alan Strozenberg, CEO e CCO da Baila, o bem-estar não deve ser tratado como um benefício isolado, mas como parte do desenho do ambiente organizacional. “Na Baila, a gente entende que cuidar da saúde mental também é construir um ambiente mais saudável e humano”, diz o executivo. A partir dessa premissa, a agência tem investido em iniciativas que estimulam convivência, troca e pertencimento, como encontros mensais de integração e descontração, que reúnem profissionais de diferentes áreas fora da lógica cotidiana de entregas. A proposta, segundo Strozenberg, é reduzir tensões, fortalecer vínculos e favorecer um clima mais colaborativo, especialmente em um contexto de alta exigência criativa e pressão por resultados.
Na WMcCann, o cuidado com a saúde mental é estruturado por meio da jornada Wellness, um programa permanente que reúne benefícios voltados à prevenção e ao acolhimento. A iniciativa oferece acesso a psicoterapia, atendimento médico integrado e suporte multidisciplinar, além de um serviço de atendimento emergencial 24 horas por dia. Segundo Cristiano Silva, diretor de pessoas e cultura da agência, a empresa também promove ações alinhadas ao calendário de qualidade de vida, como práticas integrativas, e mantém uma rede interna de colaboradores capacitados para identificar sinais de sofrimento emocional e direcionar os profissionais ao suporte adequado.

Leia a íntegra da matéria na edição impressa de 19 de janeiro.
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