A indústria brasileira do áudio movimenta produtoras, estúdios, agências, plataformas de streaming, produtoras audiovisuais e o mercado publicitário. Apesar de sua importância estratégica para a economia criativa, a produção sonora ainda dedica pouca atenção às relações raciais e aos impactos que elas produzem sobre inovação, desenvolvimento de talentos e ocupação dos espaços de decisão.
Esse é o ponto de partida do dossiê ‘A Cor do som’, desenvolvido pela Semiótica Antirracista e pelo Estúdio Nina. O estudo contou com o apoio da Audible. A pesquisa combinou revisão bibliográfica, entrevistas em profundidade e grupos de discussão com quatro especialistas e 20 profissionais negros de diferentes regiões do país. “O objetivo foi compreender como o racismo atravessa processos de formação, contratação, reconhecimento profissional e liderança em um setor frequentemente percebido como estritamente técnico”, esclarece o comunicado.
Um dos primeiros achados foi a ausência de estudos sobre raça e produção sonora. Enquanto segmentos como publicidade, cinema e televisão vêm incorporando discussões sobre representação racial, o universo do áudio ainda trata o tema de forma marginal. A revisão bibliográfica identificou que a maior parte da produção acadêmica e técnica concentra-se em aspectos tecnológicos e operacionais, deixando de lado questões relacionadas a repertórios culturais, relações de poder e desigualdades estruturais.
Outro resultado da pesquisa é a identificação da chamada “ideologia da técnica”: a percepção de que decisões relacionadas ao áudio seriam neutras e exclusivamente técnicas. Segundo os pesquisadores, essa visão dificulta o reconhecimento de desigualdades presentes em processos de seleção, definição de padrões profissionais, escolha de vozes e distribuição de oportunidades.
“O racismo se revelou como uma dimensão ampla e presente na cadeia produtiva do áudio. Desde a naturalização de gramáticas brancas de produção do som até um ambiente muito fechado para discussões sociais, em que a precarização de profissionais negros é uma regra muito pouco discutida. Outro resultado da pesquisa é a identificação da chamada ‘ideologia da técnica’”, afirma Cássio Santana, sócio da Semiótica Antirracista.
Ao todo, o estudo sistematizou 11 formas de violência racial relatadas pelos participantes, entre elas necessidade constante de comprovar competência, condescendência, enquadramento de profissionais negros exclusivamente em temas raciais e episódios de assédio moral e sexual.
“Os relatos mostram que não estamos falando apenas de representação. Estamos falando de acesso a oportunidades, reconhecimento profissional, remuneração, liderança e permanência em um mercado que ainda produz barreiras importantes para profissionais negros”, destaca Ana Carla Carneiro, sócia do Estúdio Nina.
Leia a íntegra da matéria na edição impressa do dia 19 de outubro.



