O futebol brasileiro vive uma grande virada com a MP 1.394/2026 que alterou a Lei 14.790, de 2023, sobre a operação das casas de apostas no Brasil. As bets investiram mais de R$ 1,1 bilhão em 2025 nos clubes e outros R$ 3 bi em publicidade em veículos, influencers e redes sociais.
De acordo com a Sports Value, as casas de apostas representam 34% das receitas de marketing dos clubes, que em 2025 foram de R$ 3,2 bilhões. O faturamento total dos clubes passou dos R$ 15 bilhões em 2025 e as casas de apostas representam em média 8% das receitas geradas. As receitas de marketing, que estavam em R$ 1,4 bilhão em 2022, aceleraram muito em 2024 e 2025 com os novos contratos das bets em vigor e chegaram aos R$ 3,2 bilhões no último ano.
Além disso, os valores inflacionados dos contratos das bets inflaram salários, empréstimos e dívidas com contratações. Segundo dados do último relatório financeiro da Sports Value, os Top 20 clubes de futebol gastaram R$ 6,3 bi em salários e R$ 11,6 bi em custeio do departamento de futebol, que incluem as contratações. A alta foi de 30% somente em 2025.
Para Amir Somoggi, a questão é um problema de saúde pública e deveria ser tratada como foi feita com o caso do tabaco no país: “Eu estou contra a posição do governo federal em relação à proibição da operação inteira. Eu sempre defendi o fim do patrocínio e da publicidade das bets. As bets colocam bilhões nos clubes, valores extremamente inflacionados, muito acima da média de mercado, o que acabou gerando dependência. E o ponto principal é que na Europa, Espanha, Itália, Alemanha já proíbem a publicidade, porque já foi percebido que o impacto é muito mais negativo nesse excesso de publicidade e patrocínio do que positivo com a arrecadação de impostos do que seja. Acredito que deveria ter sido feito o mesmo que ocorreu com o tabaco, que patrocinava equipes de Fórmula 1, concertos, campanhas publicitárias… e foi proibido. E com isso, a cultura do tabagismo foi se reduzindo no Brasil. O impacto acaba sendo brutal, não apenas para os clubes, mas também para emissoras de televisão, influencers e para as redes sociais. Mas há muitos outros setores, como o mercado financeiro, seguros, meios de pagamento, varejo, saúde e bem-estar, comida e bebida, streamings, delivery e outros muitos que podem fazer a substituição. Eu vejo com bons olhos a proibição do patrocínio, mesmo que afete no curto e médio prazo as contas dos clubes, mas vejo com maus olhos essa falta de visão do Estado em querer proibir uma atividade digital que, mesmo com a proibição, continuará sendo usada, porque o usuário de bet ainda terá mil alternativas. Estamos falando de uma doença. Hoje 35% dos brasileiros apostam, esse número era de 15% antes da regulamentação e isso está sendo refletido na sociedade como um todo.”
Para Fabio Wolff, a repentina mudança também foi um problema, visto que não estamos falando apenas de uma categoria de patrocínio, mas de uma fonte de receita que se tornou relevante para clubes, competições e projetos esportivos: “Uma mudança dessa dimensão, feita em um espaço curto de tempo, exige uma reorganização de todo o mercado e deixa pouco espaço para uma substituição imediata desses investimentos. O desafio passa a ser encontrar novos parceiros e modelos comerciais capazes de ocupar esse espaço sem comprometer a sustentabilidade dos projetos”, explica. “Do ponto de vista do marketing esportivo, o momento também exige cautela e planejamento. O mercado internacional está acompanhando o que acontece no Brasil, e decisões desse porte naturalmente geram impacto na percepção de segurança e previsibilidade para quem investe no esporte. Mais do que discutir uma empresa ou uma categoria específica, é preciso olhar para como preservar o fluxo de investimentos, diversificar as receitas e criar condições para que clubes e propriedades esportivas continuem atraindo marcas no longo prazo.”
Fabricio Ramos concorda: “Isso expõe um problema que o mercado já deveria estar discutindo há algum tempo: a concentração excessiva de investimento em poucas categorias deixa todo o ecossistema mais vulnerável quando há uma mudança de ciclo. Do ponto de vista do negócio, está nítida a motivação eleitoral, principalmente pelo momento e pela forma como a decisão foi tomada. O setor vinha passando por um processo recente de regulamentação e, desde janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pelo Ministério da Fazenda podiam operar nacionalmente. Agora, menos de dois anos depois, uma nova medida determina o encerramento dessa atividade. Uma mudança dessa dimensão tem impacto direto sobre contratos, planejamento e previsibilidade para quem investiu dentro das regras estabelecidas, aumentando naturalmente a percepção de insegurança”, diz o executivo, que também alerta sobre uma discussão que acabou ficando em segundo plano durante todo esse processo: a diferença entre apostas esportivas e cassino online. “São produtos diferentes, com dinâmicas, riscos e relações com o consumidor também diferentes. É importante que esse seja um dos pontos considerados daqui para frente na discussão sobre o futuro do setor.”
Leia a íntegra da matéria na edição impressa do dia 19 de outubro.




