Consumidores com 45 anos ou mais serão responsáveis por 51% do crescimento dos gastos anuais com compras online nos mercados emergentes na próxima década, incluindo o Brasil, o equivalente a US$ 4,4 trilhões. A projeção é de um estudo do World Data Lab (WDL) em parceria com o Ebanx, empresa global de tecnologia especializada em pagamentos para mercados emergentes, que aponta uma mudança demográfica no comércio eletrônico até 2036, com o avanço do consumo digital entre as faixas etárias mais velhas.
O crescimento será ainda mais acelerado entre pessoas com 65 anos ou mais, cujo gasto online deve aumentar 12,2% ao ano, a maior taxa entre os grupos analisados. A mudança também deve alcançar categorias tradicionalmente associadas ao público jovem. Em 2036, consumidores de 45 a 64 anos deverão gastar US$ 318 bilhões com games, streaming e redes sociais, quase 25% a mais do que a faixa etária de 15 a 29 anos.
O estudo estima ainda que a maior parte dos novos consumidores online dos mercados emergentes será formada por adultos acima de 45 anos. Até 2036, 223 milhões de pessoas entre 45 e 64 anos e outras 170 milhões com 65 anos ou mais deverão realizar suas primeiras compras pela internet usando o celular.
Apesar do avanço das faixas etárias mais velhas, os jovens continuarão relevantes para a expansão do comércio eletrônico, especialmente em regiões com população mais jovem, como a África Subsaariana. Nos mercados emergentes, 221 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos deverão fazer sua primeira compra digital na próxima década. O gasto online desse grupo crescerá US$ 1,9 trilhão, a uma taxa anual de 8,7%, inferior apenas à projetada para consumidores acima de 65 anos.
“Nos próximos dez anos, pessoas com 45 anos ou mais adicionarão USD 4,4 trilhões em gastos online nos mercados emergentes, o equivalente a metade de todo o crescimento. Algumas delas já fazem compras pelo celular e continuarão fazendo conforme envelhecem. Outras comprarão online pela primeira vez aos cinquenta ou sessenta anos. Os merchants que criarem seu sistema de checkout pensado apenas em jovens de 25 anos perderão ambos os grupos”, explica Wolfgang Fengler, CEO do World Data Lab.
“Uma diferença de quase um bilhão de consumidores em apenas dez anos mostra que o centro de gravidade do consumo global e dos negócios internacionais está se movendo em direção aos países onde vive a maior parte da população mundial”, afirma Marie-Elise Droga, chief revenue officer do Ebanx.
Classe média impulsiona expansão do comércio eletrônico
O avanço do consumo digital também está relacionado à expansão da classe média nos mercados emergentes. Segundo o levantamento, essas economias deverão incorporar 930 milhões de adultos a essa faixa até 2036, alcançando 3,8 bilhões de pessoas. Dois terços desse crescimento virão de indivíduos cujos gastos diários superarão US$ 13, patamar utilizado pelo estudo para definir a classe média; o restante será resultado do crescimento populacional.
Na direção oposta, as economias mais desenvolvidas, como Estados Unidos e países europeus, deverão perder 37 milhões de consumidores de classe média no mesmo período. A mudança de perfil terá impacto direto no comércio eletrônico global. De acordo com o WDL e o Ebanx, seis de cada dez dólares adicionais gastos online no mundo durante a próxima década virão dos mercados emergentes. Nessas regiões, os gastos anuais com e-commerce deverão mais que dobrar, passando de US$ 7,1 trilhões em 2026 para US$ 15,8 trilhões em 2036. O avanço representa US$ 8,7 trilhões adicionais na economia digital.
China e Índia lideram a expansão prevista, com aumentos de US$ 4,7 trilhões e US$ 1,3 trilhão, respectivamente. O Brasil aparece na terceira posição, com US$ 249 bilhões adicionais em gastos online, à frente da Indonésia, com US$ 243 bilhões, e do México, com US$ 191 bilhões.
Pagamentos alternativos ganham espaço no e-commerce
O crescimento do comércio eletrônico nos mercados emergentes também ocorre em um cenário de menor dependência do cartão de crédito. Segundo o estudo, os gastos online de adultos sem acesso a esse meio de pagamento deverão crescer 130% na próxima década, passando de US$ 3,3 trilhões em 2026 para US$ 7,6 trilhões em 2036.
A projeção é que apenas 20% dos adultos dessas economias tenham cartão de crédito até 2036, ante 66% nas economias desenvolvidas. Com isso, 67% dos novos consumidores do comércio eletrônico nos mercados emergentes não deverão ter acesso a esse meio de pagamento.
Nesse contexto, métodos alternativos ganham relevância, incluindo carteiras digitais, mobile money, cartões de débito locais e sistemas de transferência instantânea entre contas, conhecidos como A2A. Entre os exemplos estão o Pix, no Brasil, o UPI, na Índia, e o Bre-B, na Colômbia.
“Isso tem relação com a inovação que surgiu na indústria financeira dos mercados emergentes, que desenvolveu soluções focadas nos hábitos dos consumidores locais para uma economia cada vez mais mobile. Nós chamamos essas soluções de meios de pagamento locais, ou LPMs, na sigla em inglês. Foram esses métodos que permitiram o crescimento do e-commerce sem depender do cartão de crédito, que ainda tem uma penetração muito baixa nessas regiões”, diz Estelita Hass, líder de inteligência de mercado do Ebanx.
“Se o seu checkout só aceita cartão de crédito, você está conversando com apenas um em cada cinco adultos nos mercados emergentes e abrindo mão dos outros quatro”, afirma Marie-Elise. “As empresas que mais crescem com o EBANX não ficaram esperando pela popularização dos cartões. Elas adicionaram os meios de pagamento que os clientes já usam e estão conquistando novos consumidores, conseguindo tíquetes médios maiores e aumentando suas receitas recorrentes”.
Games lideram ritmo de crescimento entre as categorias
A expansão da base de consumidores e dos gastos digitais deverá beneficiar diferentes segmentos do comércio eletrônico. O varejo lidera em volume adicional de gastos online, com previsão de crescimento de US$ 4,3 trilhões até 2036.
Os games, por sua vez, devem registrar o maior ritmo de expansão entre as categorias analisadas, com alta anual de 14,2% e US$ 352 bilhões adicionais em vendas. Na sequência aparecem SaaS, ou software como serviço, com crescimento anual de 9,6% e US$ 459 bilhões adicionais; redes sociais, com alta de 9,7% ao ano e US$ 202 bilhões; viagens, com 8,1% e US$ 1,2 trilhão; e streaming, com 8% ao ano e US$ 194 bilhões adicionais.
Em todos esses segmentos, consumidores sem cartão de crédito representam mais da metade dos gastos online nos mercados emergentes. O estudo também identifica uma oportunidade de expansão entre pessoas que já utilizam pagamentos digitais, mas ainda não compram pela internet: pelo menos 957 milhões de indivíduos estão nessa situação.



