O jornalismo está diante de uma nova fase de negociações com as big techs. Com a utilização de notícias pelas inteligências artificiais generativas, veículos de imprensa se movimentam entre parcerias e embates jurídicos, sob alegações de uso indevido de conteúdo jornalístico. No Brasil, dois acordos são destaque: Google (Gemini) com o Estadão e OpenAI (ChatGPT) com os grupos Folha e UOL.
Em 25 de maio, foi anunciado que os conteúdos da Folha de S.Paulo e do UOL passariam a integrar respostas do ChatGPT, com resumos baseados em reportagens, atribuição, transparência e links para as fontes originais. A Folha também informou que a parceria prevê o compartilhamento de notícias em tempo real para alimentar a ferramenta, permitindo que usuários recebam informações mais recentes e embasadas em apuração jornalística.
Do lado dos veículos, o acordo também garante acesso ao ChatGPT Enterprise, à API da OpenAI e ao Codex, para explorar aplicações de IA em produtos para leitores, no jornalismo e em fluxos internos de trabalho.
No caso do Estadão com o Google, o acordo prevê que o jornal forneça ao Gemini um feed de notícias em tempo real, disponível 24 horas por dia. O conteúdo é utilizado para auxiliar na geração de respostas, especialmente em consultas sobre notícias de última hora e histórias em desenvolvimento. Segundo as informações divulgadas, a parceria contempla notícias factuais e exclui editoriais, colunas de opinião, artigos de convidados e conteúdos de agências ou serviços contratados pelo jornal. O acordo também foi apresentado como uma extensão da relação anterior entre as partes. O jornal já participa do Google Destaques, ou Google News Showcase, em que licencia painéis de notícias com curadoria editorial para produtos como Google Notícias e Discover.
Não foram divulgados publicamente, no entanto, pontos como o uso desses conteúdos para treinamento de modelos, o acesso ao acervo histórico, o tratamento de conteúdo fechado para assinantes, as regras de atribuição e linkagem nas respostas, as métricas de tráfego, os relatórios aos publishers, a prioridade de exibição e a eventual exclusividade.
Os modelos de remuneração de ambos os contratos não foram detalhados publicamente. Procurados, Folha, Google, Estadão, UOL e OpenAI não forneceram informações adicionais sobre os acordos. Para Eduardo Nunomura, professor da Cásper Líbero e editor da Amazônia Real, a discussão não tem origem na inteligência artificial. Ela é consequência de uma decisão tomada na transição para o digital, quando parte da imprensa acostumou o público a consumir informação jornalística sem pagamento direto.
“Nos anos 1990, jornais e emissoras se apressaram em distribuir seus produtos de graça, um ‘brinde’ que era dado para quem acessava os provedores de internet. E eles chamaram isso de estratégia. Só que o produto da imprensa é a notícia, que tem um custo de apuração. Ao entregar o conteúdo gratuitamente para tentar ganhar escala rápida, a indústria posicionou a notícia abaixo das commodities.”
Segundo ele, a diferença de percepção fica clara quando se observa a forma como o público se acostumou a pagar por outros serviços digitais. Plataformas de streaming, por exemplo, nasceram associadas a uma lógica de assinatura e de valor de produto. No jornalismo, uma vez estabelecido o padrão gratuito, qualquer tentativa de cobrança passou a ser percebida como retrocesso, e não como correção de um erro histórico. “Como convencer quem nunca pagou por notícia de que se deve pagar por informação, ainda mais em um mundo em que a desinformação corre solta e gratuita?”, questiona.
Leia a íntegra da matéria na edição impressa do dia 10 agosto.



