Bia Ambrogi, presidente da Apro+Som
Passei os últimos meses mergulhada no estudo da inteligência artificial, seu impacto na humanidade e, especialmente, no audiovisual, minha área de atuação. Acompanho ativamente a discussão sobre regulação no Brasil, incluindo o Projeto de Lei 2.338/2023, junto à Frente IA Responsável, que reúne mais de 45 entidades da economia criativa. O tema é fascinante, complexo e transformador. Foi essa inquietação que me levou a aprofundar meus estudos cursando MBA em IA aplicada a negócios e pós-graduação em neurociências do comportamento. Isso porque, antes de entender as máquinas, precisamos entender quem as cria e as controla: o cérebro humano.
E é com convicção que afirmo: a IA não é o perigo. O perigo é o poder concentrado e o pensamento terceirizado. A inteligência artificial é uma ferramenta de enorme capacidade. Amplia produtividade, acelera aprendizado, cruza dados, organiza informações, projeta cenários e executa tarefas repetitivas. Processa milhões de dados em segundos. Entrega velocidade, previsibilidade e eficiência. Funciona como uma inteligência estendida, um copiloto cognitivo de alto desempenho.
Hoje passamos, em média, 2,5 horas por dia buscando informação. Isso equivale a quase um dia por semana. Esse ganho poderia significar jornadas mais curtas e melhor qualidade de vida. Está aí mais um forte argumento a favor do fim da jornada 6x1.
Mas o sistema permitiria? Aqui entramos no ponto central: a estrutura do capitalismo contemporâneo, cada vez mais digital e concentrado. O problema não é a tecnologia, mas como seus ganhos são distribuídos. Não é a IA que vai roubar seu emprego. É o mesmo modelo que historicamente concentrou riqueza no topo enquanto utilizou a base como força produtiva. A tecnologia muda, mas a lógica de acumulação permanece. Muitos produzem, poucos concentram.
Hoje, o ativo mais valioso não é a terra nem o ouro, são os dados. Vivemos o que Byung-Chul Han chama de regime da informação: uma forma de poder baseada no controle e na previsão de comportamentos por meio de dados. O poder já não depende apenas da posse dos meios de produção, mas da capacidade de monitorar, influenciar e antecipar decisões sociais e econômicas.
Nesse contexto surge a IA. Em ‘Império da IA’, Karen Hao aponta um discurso recorrente: apenas grandes empresas e governos teriam capacidade técnica e moral para controlar essa tecnologia “para o bem da humanidade”. Mas essa narrativa também legitima a concentração de poder tecnológico nas mãos de poucos.
A IA é construída sobre dados e algoritmos. E algoritmos não são neutros. Operam dentro de parâmetros definidos por interesses econômicos e estratégicos. Ajustam padrões, aprendem com dados, mas sempre dentro de limites previamente estabelecidos. Não têm consciência, intenção ou ética própria. Podem reproduzir vieses sociais, políticos e culturais, o que reforça a importância de regulação e transparência.
Mas a discussão não é apenas estrutural. É também individual. A IA pode torná-lo mais competitivo, mais criativo e mais produtivo. Pode ser uma assistente de altíssima performance, um “acelerador de brainstorm”, uma extensão do seu córtex pré-frontal. Ela executa. Ela potencializa. Mas também pode atrofiar.
Se você delega totalmente o pensamento crítico, a análise e a criatividade, reduz o exercício cognitivo. E função não exercida enfraquece. A IA não é boa nem ruim. Assim como a eletricidade, que pode fritar o ovo que vai te alimentar ou causar um choque que vai te eletrocutar.
A ferramenta é neutra. O uso não. Seria ingênuo dizer que tudo depende apenas do indivíduo, ignorando a força estrutural de um sistema que vende facilidade enquanto concentra poder.
Trabalhos repetitivos serão substituídos. Mas novas oportunidades surgirão. A história mostra que cada revolução tecnológica elimina funções e cria outras. Estamos diante de uma matriz potente de novas profissões, novas especializações e novos modelos de negócio ricos em possibilidades.
A questão não é se a IA vai substituir humanos. A questão é: vamos usá-la como extensão da nossa inteligência ou como substituição do nosso pensar? A IA não é a vilã. A vilã é a concentração de poder e a escolha humana sempre induzida ao mínimo esforço.
O futuro não será definido pela tecnologia. Será definido por quem a controla e pela forma como escolhemos utilizá-la.