As bets e a mídia

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Por Stalimir Vieira, diretor da Base de Marketing

Nada ajuda mais a relativizar qualquer coisa do que o dinheiro. Muito dinheiro, então, é capaz de relativizar absolutamente tudo. Venho, aliás, confirmando essa premissa, diariamente, no horário nobre do jornalismo da TV aberta.

Ali, em tese, acredita-se estarem pautados os acontecimentos mais relevantes do Brasil e do mundo. Editorias e repórteres mobilizam-se o tempo todo, em busca da melhor apuração de fatos ocorridos e que de algum modo afetam a vida dos espectadores.

São expostas as graças e, principalmente, as desgraças. Todas as desgraças? Não, claro que não. Apenas aquelas que não tenham relação com os negócios dessa mesma mídia. O exemplo mais evidente e escandaloso é a tragédia que se abate sobre a população de baixa renda, provocada pela jogatina que sequestrou o país.

Famílias se endividam irremediavelmente, impelidas por uma publicidade que, de modo irresponsável, normaliza o “suicídio” financeiro. Problemas mentais se disseminam na velocidade em que a ansiedade leva ao jogo compulsivo. Parte relevante do consumo de bens essenciais é substituída pelo uso da renda em apostas.

Em agosto de 2024, um estudo do Banco Central apontou que 21% do total pago pelo Bolsa Família a beneficiários do programa foi destinado de presente para as bets.

Alguma coisa como 3 bilhões de reais, contabilizando-se apenas os pagamentos via Pix. Em 2024, essa notícia ainda era relevante, era levada ao ar com destaque e causava justo espanto.

Hoje, como se o problema estivesse resolvido, ela sumiu das telas. Pode zapear à vontade, entre 19 e 21 horas, que não se ouvirá uma única palavra sobre o assunto. Casualidade?
Parece que não. Uma rápida pesquisa mostra que, entre o fim daquele ano e 2025, três das nossas mais poderosas redes de TV aberta entraram de cabeça no negócio da jogatina, sozinhas ou em sociedade com operadores estrangeiros.

Sem falar da incensada nova estrela da transmissão esportiva, que manipula o cassino das bets com força máxima. Desde criança, ouvi dizer que a mídia é o quarto poder. O que, muitas vezes, se convertia em algo positivo.

Quando, por exemplo, os poderes constituídos se corrompiam, em suas diversas modalidades, num cardápio que inclui aprovação de leis de interesse privado, venda de sentenças ou recebimento de propina em obras, sempre restava a mídia para denunciar.

Era a nossa esperança derradeira de desmoralizar a bandidagem política e forçar a punição dos corruptos.

Mas o que se pode esperar, hoje, quando temos parte relevante do tal quarto poder compondo a turma que opera em conjunto para abocanhar 21% do Bolsa Família, de maneira desavergonhada? Qual vai ser o interesse em demonstrar que os brasileiros pobres estão sofrendo um ataque doutrinário para o jogo, permanente e criminoso?

Qual vai ser o interesse em denunciar que milhões de pessoas estão sendo viciadas numa prática absolutamente destrutiva para si mesmas e para suas famílias?

Talvez a melhor, no sentido de mais sinceramente cínica, resposta tenha sido a do novo milionário
da mídia, quando ele disse: “Não tem muito o que fazer, né? É o que faz girar o negócio”.

Ou seja, como eu escrevi lá no início, nada ajuda mais a relativizar qualquer coisa do que o dinheiro. Pode apostar.

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