Por Alexis Thuller Pagliarini, sócio-fundador da Criativista
Neste mês de julho, centenas de jovens, dentre eles o neto de Rubens Paiva, saíram às ruas de São Francisco sob a bandeira ‘Stop the AI race’. Cartazes com frases como “a IA não é inevitável” passaram pelas portas de OpenAI, Anthropic e Google DeepMind. É bonito ver gente jovem disposta a marchar por algo em que acredita. Mas, sendo sincero, esse tipo de protesto me parece, na prática, pouco eficaz.
Não porque a causa seja fraca — pelo contrário.
É porque a lógica que move a corrida da IA já não responde a manifestações de rua. Trilhões de dólares
já foram investidos, data centers já foram erguidos e cada laboratório justifica seu ritmo dizendo que precisa vencer o concorrente antes que outro o faça. Pedir para “parar” é como gritar para o vento mudar de direção: a intenção é nobre, o efeito é quase
nenhum.
E, ainda assim, entendo profundamente a raiva por trás desses cartazes. Estudos recentes mostram que a geração Z é quem mais perde no novo mercado de trabalho moldado pela IA — a substituição automatizada já vem apagando milhares de vagas por mês nos Estados Unidos. Não é ansiedade abstrata: é gente recém-formada vendo a porta de entrada no mercado se fechar antes mesmo de tentar abri-la.
Esse medo é legítimo, e ignorá-lo seria tão ingênuo quanto acreditar que gritar “pare” vai deter os bilhões investidos. O verdadeiro dilema não é “evolução ou estagnação”. É outro: se o avanço da IA é mesmo inevitável, como agimos para impedir que ele seja usado de forma antiética? Como protegemos o bem-estar das pessoas — emprego, dignidade, verdade — sem fingir que dá para apertar o botão de pausa em uma tecnologia que já está dentro de bilhões de bolsos?
Estive acompanhando as discussões do Cannes Lions deste ano, e um movimento me chamou a atenção: pela primeira vez em muito tempo, o festival mais importante de criatividade do mundo parou de especular sobre o futuro da IA e passou a discutir o que já foi feito com ela.
E o grande vencedor da categoria Design não foi um case movido a inteligência artificial — foi o rebranding do Apple TV+, construído inteiramente à moda antiga: placas de vidro de verdade, luz física, câmera parada em estúdio, zero CGI.
Uma marca símbolo do universo digital escolheu o analógico para dizer algo que nenhum algoritmo consegue simular: presença, imperfeição, verdade material. No mesmo festival, empresas como a Polaroid transformaram a “foto ruim” em identidade, e marcas passaram a apostar deliberadamente em fricção — tirar conveniência de propósito, para que a pessoa pare e lembre.
Isso é Criativismo. Não é recusar a tecnologia por medo, nem abraçá-la sem crítica por conveniência. É usar a criatividade como ferramenta de ativismo: escolher, com intenção, onde o humano precisa aparecer, e resistir criativamente ao que ameaça nosso bem-estar coletivo — não com cartazes pedindo para parar o mundo, mas com trabalho, marca, produto e posicionamento que provam, na prática, que existe outro caminho possível.
A evolução sempre incomoda. Os carroceiros de Nova York protestavam contra a chegada dos carros, e a chegada da TV fez com que muitos acreditassem no fim do cinema. E assim acontece a inevitável evolução. A geração que hoje protesta contra a IA nas ruas de São Francisco pode fazer o mesmo movimento com muito mais força se transformar essa indignação em criação: exigir transparência de quem constrói essas ferramentas, defender autoria humana em contratos e leis, criar produtos e marcas que provem que ética e inovação não são opostos.
A IA não vai parar. Mas o jeito como ela é usada — isso ainda depende inteiramente de nós. E é exatamente aí que a criatividade deixa de ser estética e se torna ativismo.



