O cabo de alumínio

Por Charles Faria, CEO da Trendspace

A casa da minha avó na Tijuca tinha pouco espaço e muita coisa. Nunca mais morei num lugar que me fizesse sentir tão dentro do mundo. Era uma daquelas casas que parecem maiores por dentro do que por fora. O espaço não era grande. Cada canto tinha peso.

O quarto do meu avô era um templo. Ele era um entusiasta da língua portuguesa do tipo que não deixava ninguém falar errado sem consequência. Falou errado, o coro comia. Lá dentro, tinha um atlas enorme e um livro chamado ‘Todas as Copas do Mundo’. Eu folheava os dois por horas como se fossem portais. Decorei bandeiras. Aprendi capitais que já não me recordo mais. Desenvolvi uma certeza física, quase corporal, de que o mundo era muito maior do que a Rua Uruguai.

O quarto da minha avó era menor. Era onde eu dormia, onde ela dormia e onde a antena pegava sinal. Ali, meus olhos grudaram na velha MTV. Toda noite era uma negociação silenciosa com o cabo de alumínio tentando segurar a imagem. Eu ficava parado, imóvel, no ângulo exato, enquanto o clipe tocava.

Minha velha acreditava em bilhetinho de igreja. Sabe aquele papel que circulava nas comunidades evangélicas dizendo que ‘Dragon Ball Z’ era coisa do capeta? Ela recebia, lia e levava muito a sério. Passei semanas argumentando que Goku era mocinho, que protegia as pessoas, que não havia nada de satânico naquilo. Ganhei. No dia seguinte, liguei a TV e o público do torneio de artes marciais começou a gritar “Satan, Satan, Satan” na arquibancada. Perdi o caso de forma irreversível.

Mas a MTV? Eu não perdia. Queria ser VJ. Queria entender a história que um clipe contava em três minutos. Como uma imagem escolhida a dedo mudava o que você sentia. Eu não tinha vocabulário pra nomear aquilo. Só sabia que alguém havia decidido cada coisa. E que essa decisão importava.

Aquela casa era o lar dos meus amigos também. Todos moravam nas favelas ao lado: Borel, Formiga, Salgueiro, Turano, Macacos… Tinha dia que alguns deles não desciam para a aula. Sempre estudei em escola pública. Éramos pretinhos numa cidade que não facilitava as coisas para pretinhos. Ali dentro é que fazíamos nosso trabalho escolar, comíamos e nos divertíamos antes de ir pra escola.

Meu gatilho moral veio de uma vez em que minha mãe me levou para visitar um primo em São João de Meriti. Brincamos a tarde inteira. Num momento, ele parou, trocou de roupa e saiu. Tinha 7 anos. Foi lavar carros. Naquele dia, lavou quatro, cinco. Quando voltou, parecia ter 40. Eu não conseguia parar de olhar para ele. Não entendi direito o que senti naquele momento. Só sei que, a partir dali, passei a ter medo. Um medo que me acompanhou por muito tempo e que me acompanha até hoje: o de um dia alguém me olhar do jeito que eu olhei pra ele.

Virei o nerd da turma. Representante de sala. Grêmio estudantil. Qualquer coisa que me colocasse em evidência. Movido pelo medo.

Um dia, um tiro no elevador mudou tudo. Eu não sabia de onde vinha. Não sabia o nome do filme. Só sabia que tinha visto alguma coisa que me deixou parado, em choque. Descobri aos poucos: ‘Os Infiltrados’. Martin Scorsese. Assisti de novo. Assisti mais uma vez. E, pela primeira vez na vida, me fiz uma pergunta: quem criou isto? Como alguém constrói uma cena que faz uma pessoa parar de respirar? Aquele dia troquei o sonho de ser VJ pelo sonho de ser diretor de cinema.

Esse acúmulo de mundo em torno de mim me fez sair de casa. Foi a coisa mais assustadora que eu já fiz. Com 18 anos, dirigi meu primeiro programa de TV com os melhores amigos que eu tinha, o ‘Subsolo’, dedicado a bandas independentes que não tocavam em rádio nenhuma. Logo depois, um curta-documental chamado ‘Juventude do cais’, que ganhou prêmios em Coimbra, Siliguri e São Tomé e Príncipe. Na época, me pareceu completamente absurdo. Mas foi ali que eu entendi que podia ser alguém que coloca coisas no mundo. Voei. Depois disso, estudei cinema na UFF. Não adiantou quase nada. As madrugadas com a antena na mão, o atlas do meu avô e aquele primo lavando automóveis aos 7 anos… esses sim me formaram.

Hoje tenho 31. Sou CEO da Trendspace, faço parte de um ecossistema com mais de 200 pessoas e não cheguei ao telão que eu sonhei. Virei a pessoa que coloca outras pessoas na tela. Fui entendendo, com o tempo, que isso também é uma forma de direção.

Conto isso porque existe alguém que cresceu como eu lendo esse texto agora. Que também teve medo. Que também olhou pra alguém e decidiu que não queria aquilo. Se as suas referências parecem improváveis, pode confiar nelas. As minhas eram um cabo de alumínio, um atlas e um tiro num elevador. Deu certo.

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