Por um certo tempo, representei a Abap em audiências públicas, em Brasília, cujos temas eram projetos de lei com medidas restritivas à publicidade. Cercado de “mocinhos” e “mocinhas”, tanto na mesa quanto na plateia, cabia a mim o papel do “bandido”. Ou seja, do cara que defendia o direito de anunciar, entendendo como suficiente o atendimento às normas do Conar.

Nessas horas, costumava ouvir poucas e boas, mas também as dizia. Lembro de um deputado do baixo clero, cujo nome não guardei, de dedo em riste, me acusando: “vocês, publicitários, são especialistas em tentar transformar qualquer porcaria em ouro”. Já com bastante tempo de profissão, estava acostumado a ouvir esse padrão de comentário, inclusive em família, normalmente como gozação. Mas ali era sério.

O sujeito buscava desmerecer meus argumentos, partindo da premissa de que eu era um farsante. Como, porém, sou amigo dos debates, mantive a calma e respondi que já tinha ouvido aquele tipo de acusação, ao longo da carreira, sobretudo depois que passei a militar no marketing político. Fez-se um silêncio sepulcral no ambiente. O sujeito ficou atônito. Depois de dois segundos de pausa, emendei que discordava dessas críticas, pois não julgava porcarias nem os produtos nem os políticos a que eu anunciava.

Esse episódio me veio à mente, ao ficar sabendo que um colega e amigo de longa data, talentosíssimo, por sinal, abriu mão de faturar uma bela dinheirama, ao negar-se a trabalhar na campanha pela reeleição do Bozo. Comigo e outro bom amigo, já tinha ocorrido coisa parecida, há poucos meses, quando oferecemos a mesma negativa não ao Bozo, diretamente, mas a um dos seus mais importantes candidatos. Ora, há, então, um limite em nosso “mercenarismo”? Parece que sim. Afinal, nem o meu amigo, agora, nem nós, naquele momento, tínhamos fechado qualquer outra campanha.

Tratou-se de uma decisão movida por princípios e valores, não por circunstâncias. Uma das diferenças mais dramáticas entre a publicidade convencional e o marketing político é a íntima convivência com o anunciado, a que este obriga.

Quando você recebe um briefing para anunciar alguma marca, não faz falta que aquilo a que ela identifica esteja junto. Tampouco, faz falta que você goste do produto. Numa campanha política, você “respira” o candidato ou a candidata o tempo todo. Há que se ter um mínimo de identificação para que essa relação flua ou há que se construir uma convivência baseada em um conjunto mínimo de afinidades.

Como toda candidatura pretende vender uma boa imagem, sugestões que contribuam com isso são acatadas, o que torna o trabalho mais saudável. No entanto, como fazer isso na campanha do Bozo? Por maior que seja a frieza profissional, por mais imbuído de isenção que se pretenda agir, por mais focado nas benesses de uma grana grossa, são 75 dias e noites de exercício intelectual para reelegê-lo!

Sim, para, quem sabe, no final, pegar o dinheiro e dar o fora daqui! Mesmo nessa perspectiva, são 75 dias e noites infindas, comendo, bebendo, tragando, cheirando e chafurdando no bozismo. Impossível! Faz sentido que seja tarefa que apenas os filhos se sintam aptos a cumprir.

Stalimir Vieira é diretor da Base de Marketing
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