Alexis Thuller Pagliarini, sócio-fundador da ESG4

Escrevo este texto com certo alívio, depois da decisão dos EUA de aceitar a trégua no conflito com o Irã. A ameaça era, segundo palavras de Trump, dizimar uma civilização inteira. Não sabemos o que vem por aí, já que a atitude do instável líder dos EUA é imprevisível. A ameaça, portanto, continua no ar. E ela não vem apenas das guerras e dos mais de 200 conflitos existentes no mundo hoje. Temos as questões climáticas, que representam uma ameaça igualmente importante.

Não é de hoje que os alertas são dados. Já em 1987, Gro Brundtland, então primeira-ministra da Noruega, liderou estudo junto à ONU que culminou no relatório denominado ‘Our common future’. Em síntese, o documento salientava o risco de sobrevivência das gerações atuais e futuras, perante o quadro presente àquela época. Os principais pontos do relatório eram:

1- Ameaça à sobrevivência: O relatório destacou problemas urgentes, como o aquecimento global, a destruição da camada de ozônio e a desertificação, tratando-os como questões de sobrevivência, não apenas de preservação ambiental. 2- Conceito de desenvolvimento sustentável: Para responder a esse alerta, o relatório popularizou a definição de desenvolvimento sustentável: aquele que “satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de atenderem às próprias necessidades”. 3- Interdependência: O relatório enfatizou que a crise ambiental e a pobreza estão interligadas, exigindo ações conjuntas entre nações ricas e pobres. 4- Responsabilidade intergeracional: A mensagem central é que não podemos usar recursos da Terra com base em metas de curto prazo, pois estamos criando uma dívida que as gerações futuras não poderão pagar.

O relatório Brundtland foi o marco que estabeleceu a sustentabilidade como um objetivo político global e introduziu a necessidade de integrar economia, sociedade e meio ambiente. De lá para cá, tivemos as COPs e várias iniciativas de acordos internacionais, com destaque para o Acordo de Paris, assinado em 2015, quando os signatários se comprometeram a diminuir e mitigar emissões de gases de efeito estufa para impedir um aquecimento global acima de 1,5°C, em relação à era pré-industrial.

Dez anos depois do Acordo, os resultados são muito tímidos e a preocupação continua. Segundo cientistas, sete de nove parâmetros cruciais de vida na Terra estão comprometidos.  1- Mudanças no uso da terra; 2- Mudanças climáticas; 3- Perda de biodiversidade; 4- Ciclo do nitrogênio e fósforo; 5- Uso de água doce; 6- Poluição química e 7- Acidificação dos oceanos. Conseguimos reverter apenas duas ameaças: Emissão de aerossóis na atmosfera e Diminuição da camada de ozônio.

O que preocupa é que, perante essas ameaças tão concretas, há atitudes de negacionismo e desdém por parte dos líderes do maior país da Terra. No lugar de empatia e união de esforços internacionais, estamos presenciando um recrudescimento da xenofobia e na insensibilidade em relação ao bem-estar de todos – e não de apenas alguns.

À moda dos antigos imperadores, ameaça-se dominar países à força, tomar suas riquezas, dizimar seus povos. Como deixamos chegar a este ponto?

Sob impacto da pandemia, presenciamos uma tomada de consciência e pareceu que entraríamos num ciclo virtuoso, de iniciativas positivas em torno da responsabilidade socioambiental e governança ética. Mas o que vemos, por parte de governantes insensíveis, é exatamente o oposto. Perdoe-me o tom catastrófico, mas o fato é que chegamos a uma encruzilhada crucial.

Estamos na iminência de uma nova era, a era do Antropoceno, a primeira causada diretamente pelas ações humanas. Isso poderá ser o início do fim ou um recomeço. Depende de nós!

Imagem do Topo: Divulgação