A tentação do cinismo é compreensível, mas o custo de sucumbir a ela é catastrófico

Durante décadas, alimentamos uma narrativa otimista sobre nosso futuro: sociedades evoluiriam, gradual, mas firmemente em direção a formas mais éticas de governança. Líderes seriam constrangidos por instituições, normas internacionais e pressão da opinião pública a respeitar direitos humanos, proteger o meio ambiente e honrar acordos multilaterais.

Empresas adotariam práticas ESG não apenas por marketing, mas por reconhecerem que valor sustentável depende de ecossistemas saudáveis e sociedades estáveis. Esse consenso civilizatório, embora sempre frágil, parecia representar o mainstream das aspirações globais. Então, algo fundamental se rompeu. O mundo assiste, perplexo, a uma potência global ser governada por lógica radicalmente distinta: poder bruto substituindo negociação; ameaças unilaterais no lugar de acordos multilaterais. Países aliados são tarifados arbitrariamente, ameaçados sem pudor diplomático. Dentro de suas fronteiras, imigrantes são caçados em operações militarizadas, deportados sumariamente.

A crueldade não é efeito colateral, mas performance deliberada de poder. Mais perturbador que as políticas em si é a mensagem implícita: esqueçam as regras, esqueçam as instituições, esqueçam a ética. Quem tem poder faz o que quer. E funciona — ao menos no curto prazo. E aí mora o perigo: exemplos são contagiosos. Se a maior potência do planeta pode governar assim e prosperar, por que outros não fariam o mesmo?

Se acordos internacionais são descartáveis para quem tem poder militar, por que países respeitariam compromissos climáticos custosos? No mundo corporativo, os ecos já se fazem sentir. Executivos questionam: estamos sendo ingênuos? Enquanto nos autoimpomos restrições, concorrentes menos escrupulosos capturam mercado. A tentação do cinismo é compreensível, mas o custo de sucumbir a ela é catastrófico.

Porque embora a lógica do poder bruto funcione no curto prazo para quem o detém, suas consequências são destrutivas para todos — incluindo os poderosos. A governança ética não era idealismo ingênuo — era reconhecimento pragmático de que problemas complexos e interconectados não se resolvem unilateralmente. Exigem coordenação que só é possível quando há confiança mínima, que só existe quando há respeito a regras compartilhadas.

Então, o que fazemos neste momento de xeque? Primeiro, reconhecer o óbvio: não voltaremos rapidamente ao consenso anterior. O dano está feito. Haverá mais líderes testando limites, mais empresas questionando compromissos ESG. Segundo, resistir. Nem tudo está perdido porque um ator poderoso renegou normas. Há muitos países, empresas, organizações e indivíduos comprometidos com formas mais civilizadas de poder.

A União Europeia continua liderando a regulação climática. Fundos trilionários mantêm critérios ESG rigorosos. Movimentos sociais pressionam por consciência. Terceiro, entender que esta é uma disputa sobre qual tipo de mundo queremos. Aquele onde poder é a única moeda e onde empatia é fraqueza? Ou outro, onde instituições importam e onde há constrangimentos ao exercício arbitrário de poder?

A resposta será determinada por escolhas coletivas. Cada empresa que mantém compromissos ESG sob pressão; cada investidor que prioriza impacto sustentável; cada consumidor que recompensa práticas éticas; cada eleitor que rejeita demagogia autoritária. A governança está em xeque, mas não é xeque-mate.

O que está sendo testado não é apenas a viabilidade de instituições internacionais ou práticas empresariais responsáveis. É algo mais fundamental: se nossa espécie é capaz de coordenação sofisticada diante de ameaças existenciais ou se regrediremos à lógica tribal de poder bruto. A história não tem arco predeterminado. Ela vai para onde nós a levamos.