Faz alguns anos, a publicidade esqueceu de mim. Não como profissional, mas como consumidor. Curiosamente, numa fase da vida em que estou em condições bastante favoráveis para consumir.
As marcas, no entanto, não parecem nem um pouco interessadas nisso. É verdade que, com o tempo, me tornei mais criterioso, menos impulsivo e menos sujeito aos apelos convencionais dos anúncios.
Ficou mais difícil me convencer a comprar alguma coisa, a mudar ou incorporar um hábito. Conversando com amigos da mesma geração, concordamos que a experiência adquirida com o avanço da idade vai moldando em nós uma clareza maior sobre o que queremos e o que não queremos.
O que obriga qualquer proposta que recebamos a ter o poder de tentar nos demover de algumas convicções. Não é coisa simples.
A publicidade, de um modo geral, trata de estimular experiências. Quanto mais experiência tivermos, menos novidades vamos identificar nas sugestões de potenciais experiências. Outra barreira interessante é o progressivo interesse cultural.
Não por espetáculos embalados pelo marketing, capazes de mobilizar milhões de pessoas. Mas por manifestações intelectuais que estimulem a reflexão e a sensibilidade, verdadeiros nutrientes da sabedoria. Isso não significa uma vida de isolamento ou refratária ao novo. Pelo contrário: nunca tive tanta curiosidade e nunca acolhi tanta informação.
“Parece que a publicidade desaprendeu a conversar com a inteligência”
Nesse aspecto, aliás, a inteligência artificial tem sido uma ferramenta utilíssima, entregando de bandeja, em segundos, aquilo que uma curiosidade acurada exige. É interessante o quanto esse encanto com as possibilidades de acessar, rapidamente, o infinito universo do conhecimento científico e filosófico, por outro lado, empurra para a simplicidade.
É como se tudo o que foi “consumido” para, num dia, atender a circunstâncias presas a rotinas funcionais ou sociais, fosse se tornando obsoleto e a suficiência cada vez mais elementar.
Desde que comprei o primeiro carro da Honda, não abandonei mais a marca. Foram 15 anos com o primeiro e já dois com o segundo. Isso diz muita coisa sobre meu perfil de consumo.
Fazendo uma retrospectiva, concluo que, no momento em que eu pude pagar o que identifiquei e confirmei como sendo uma marca confiável, não a abandonei mais. O motivo é bastante simples: não tenho nenhum interesse pelo assunto.
Fico imaginando, então, o desafio da publicidade para me vender um carro, atualmente. Difícil. Assisto a praticamente todos os telejornais, em canais abertos e por assinatura. Nos intervalos, não percebo nada que me interesse. Nada que me estimule algum sentimento, algum desejo, alguma vontade de saber mais sobre o produto ou o serviço. Nas redes sociais, a mesma coisa.
Apenas sucessões de imagens e ruídos. Parece que a publicidade desaprendeu a conversar com a inteligência. Ou, quem sabe, apenas, estrategicamente, se desinteressou dela.
Se antes, a forma criativa de expressão era um instrumento potencializador do interesse pelo conteúdo, agora, ao virar um padrão quase uniforme, contaminou a percepção dos produtos. Parecem todos iguais.
Stalimir Vieira é diretor da Base de Marketing
stalimircom@gmail.com