Lais Sambugaro, diretora de cena da produtora Modernista

Existem roteiros com os quais sinto uma afinidade quase natural. As palavras escritas no papel, de alguma forma, contêm parte de mim mesma e, ao lê-los, há um diálogo fluido com o meu universo simbólico e com as lentes pelas quais vejo o mundo. Sei o que dizer e, mais importante, como dizer. Não que não haja trabalho envolvido – há e muito. Mas é como dançar um ritmo já conhecido; as ancas acompanham a batida involuntariamente e o filme desabrocha na mente como em terra fértil.

E há os outros. Que surgem enquanto ando distraída pela rua, consumida pelo filme que amo e sei fazer. De encontrão, esbarram-me e forçam o recalcular das trajetórias. O ritmo é outro e o corpo ainda confabula estratégias para dar conta do compasso.

Talvez seja essa a beleza do documentário: ser especialista – ainda que provisória – em mundos alheios. Na minha biblioteca mental convivem o mar, o zunido infrassônico da Terra, meteoritos, moda vintage e, mais recentemente, – pasme – MMA, Mixed Martial Arts, ou Vale-Tudo, para os íntimos dos anos 1990.
Sangue. Suor. Mata-leão. Guilhotina. Armlock. Ground and pound. Passei meses estudando, conversando e vivenciando a rotina de alguns dos maiores lutadores brasileiros para uma série documental. Logo eu, acostumada ao pedestal das coisas elevadas, etéreas e sensíveis, fui parar na redoma sangrenta – e masculina – do MMA. Nocaute.

Poderia escrever um texto motivacional genérico sobre disciplina, persistência ou resiliência. Coragem e força. O esporte é um prato cheio para clichês. Poderia ainda fazer uma crítica asseada e limpinha sobre como a barbárie não cabe no século 21 – risos – ou sobre a espetacularização da violência. Mas, em sinceridade, o que atravessou-me o peito foi outra coisa. Afinal, o que leva um ser humano a dedicar uma vida a espancar outras pessoas? A resposta pouco importa, já que seria impossível chegar a uma conclusão única.

Mas aí é que está. A violência não elimina a complexidade, convive com ela. E se há humano, há história. No octógono, dois corpos se enfrentam sob luz branca e regras claras. Fora dele, batalhas menos coreografadas.

Comi bolo de aniversário com a avó de um peso-médio; ouvi o sonho frustrado de uma dançarina que agora se apresenta no octógono; fui tocada pela sensibilidade de uma lutadora que escolheu viver o amor de sua namorada e, diante da incompreensão da família, ainda assim, dizer que ama e honra seus pais; assisti um homem derrubar um boi com os braços e recordar-se do abandono de sua mãe. Ouvi histórias de perda, luto, vícios, desigualdade social e redenção.

Para existir no mercado como diretor, há de se construir uma imagem, uma persona. É necessário um estilo bem definido, ser reconhecido instantaneamente pelo que se faz para que assim seja possível embalar-se, rotular-se e vender-se dentro de uma prateleira recheada com outros ‘talentos’. Tratando-se de diretoras mulheres, é ainda mais difícil escapar de caixas. É como a roda gira. Mas quando tenho crises de consciência, empresto as palavras do grande Egberto Gismonti: coerência, faço questão de não tê-la.

Não há coerência como projeto de vida e todo ser humano é um campo de forças em conflito. Ninguém é feito de uma peça só. Nem o lutador que quebra um nariz com precisão técnica, nem a diretora que se achava delicada demais para aquilo. Para deixar-se atravessar há de haver porosidade, escuta e curiosidade genuína. Conviver com o que nos desconcerta é um antídoto contra uma caricatura de nós mesmos. Ninguém é só o que apresenta ao mundo. Nem eles. Nem eu.

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