O artista, mesmo quando inescrutável, é tão vivo e prestes a morrer quanto todos os outros. O seu ato de criar também sobrevive entre inspirações e aspirações, e a criação tem em sua constituição física memórias e desejos, além, é claro, de seu corpo. Esse corpo se parece com uma porta que, depois que abre, nunca mais se fecha.
Quando a porta é autêntica e consistente, ela tende a se tornar uma passagem quase obrigatória no caminho das pessoas e, de um jeito menos poético, as grandes ideias e criações trazem novas percepções do mundo. E, por isso, você ainda é capaz de se questionar se os brinquedos realmente não têm vida ou se no palito de picolé existe uma frase que dá direito a mais um.
Como é possível construir portas tão grandes assim? O que essas pessoas assistiram, leram ou comeram para que pensamentos pudessem ser fundidos? Hoje, após 16 anos escrevendo, criando e dirigindo, eu tenho um palpite. A autenticidade eclode da aspiração e do desejo. E a consistência nasce da inspiração: de como você atravessou o tempo, do que assistiu, de quais das suas mentiras viraram boas histórias, mas, principalmente, de quantas vezes você parou para assistir à vida e usá-la como referência.A arte imita a vida. O tubarão do
Spielberg tem o dobro do tamanho do real, mas ele tem o tamanho correto se você for fiel às histórias de pescadores. E essa é a minha reflexão: assistir à vida como uma grande referência e como um eterno Staff Pick do Vimeo. Como escrever uma cena de desespero sem nunca ter assistido a vários tipos de desespero, de pessoas e lugares diferentes?
Lembro-me bem do dia em que presenciei uma garota que chegou atrasada para sua viagem de férias no aeroporto. Ela não tinha como remarcar, não tinha dinheiro para alterar a sua passagem, e nada ali, por alguns minutos, fazia sentido. Então, ela se vestiu de desespero — um traje que ignorava qualquer presença. Enquanto gritava, olhava para as mãos para ver se encontrava algum sentido irracional em tudo aquilo, como se buscasse na derrota algum tipo de maldição ou intervenção demoníaca. Poucos segundos depois, em vez de deslizar lentamente por alguma pilastra chorando, ela simplesmente deitou no chão. Encostou a cabeça em sua mochila laranja e dormiu em posição fetal. Ela não usou o celular, não chamou a gerente e não olhou para a câmera.
Nós, involuntariamente, reagimos de formas muito específicas. Saber usar isso é um ótimo batente e gostaria de ver mais disso nos filmes publicitários. Mais sangue, suor, poeira, migalha de bolacha, cupom fiscal dobrado no bolso da calça que foi lavada
Se você conseguiu entrar dentro dessa reflexão e trabalha com criação, leve seu caderninho ou anote no guardanapo a sua próxima referência. Até porque construímos essas portas para essas pessoas, e ninguém vai ligar para a sacada genial no detalhe da maçaneta, mas sim para onde essa porta leva.
Bruno Maffei, diretor de cena da Ilha Crossmídia