As organizações começam a medir o sucesso através da sustentabilidade humana e do bem-estar
Vivemos em uma era definida pela ausência de fronteiras tradicionais e por interrupções constantes, o que exige das organizações mais do que apenas agilidade; exige imaginação. O relatório 2025 Global Human Capital Trends, da Deloitte, revela que os líderes de hoje enfrentam escolhas complexas entre controle ou empoderamento, estabilidade ou agilidade, e automação ou aumento das capacidades humanas.
No entanto, a grande virada de chave é entender que essas não precisam ser escolhas excludentes. O sucesso está em encontrar o equilíbrio certo para apoiar tanto os resultados de negócios quanto os resultados humanos. A inteligência artificial está remodelando o trabalho de forma sem precedentes. Diante disso, as organizações precisam desenvolver uma nova “proposta de valor humano”.
O desafio não é apenas implementar a tecnologia, mas criar um ambiente onde a IA seja vista como uma aliada (“amiga”), e não como uma ameaça (“inimiga”). Isso exige um novo cálculo para avaliar o valor dos investimentos em tecnologia, focando em como ela pode potencializar o desempenho humano em vez de apenas substituir tarefas.
Nesse contexto, surge um novo termo: stagility (algo como estagilidade). Em síntese, estamos tratando de estabilidade como âncora para a agilidade. Em um mundo onde a disrupção é a norma, as fontes tradicionais de estabilidade para os trabalhadores estão desaparecendo.
Para que as organizações se movam com a velocidade necessária, elas devem, paradoxalmente, identificar novas “âncoras” de estabilidade para seu pessoal. Somente quando o trabalhador se sente seguro e estável em sua base, ele possui a confiança necessária para agir com a agilidade exigida pelo mercado. Frequentemente, o “trabalho impede a realização do trabalho”.
O relatório destaca a importância de reclamar a capacidade organizacional, eliminando o ruído e as burocracias que consomem o tempo dos colaboradores sem gerar valor real. Ao criar “folga” (slack) no sistema, as organizações permitem que as pessoas foquem no que realmente importa, aumentando a eficácia e o propósito das funções desempenhadas. É hora de repensar a gestão e a motivação.
O desempenho humano não é alcançado através de processos genéricos de gestão. O relatório sugere que a verdadeira performance está em compreender o que motiva cada indivíduo — a “unidade de um”. Isso exige que os processos de gestão de desempenho sejam reinventados, indo além da engenharia de processos para focar no que faz cada pessoa “funcionar”.
Nesse contexto, o papel do gestor não deve ser eliminado, mas sim reinventado. Com o auxílio da IA para tarefas administrativas e de controle, os gestores podem finalmente focar no desenvolvimento humano e no suporte às suas equipes. A tecnologia, portanto, torna-se um facilitador para que o gestor atue de forma mais humana e estratégica. Mais do que produtividade, o foco agora deve ser na sustentabilidade humana. As métricas tradicionais de produtividade estão se tornando insuficientes.
À medida que o desempenho humano assume o centro do palco, as organizações começam a medir o sucesso através da sustentabilidade humana e do bem-estar. Líderes desempenham um papel crítico ao promover essa transformação, garantindo que o trabalho seja sustentável a longo prazo e que a organização seja responsabilizada por esses resultados humanos.
Em resumo, o cenário de 2026 exige que as organizações parem de ver o valor humano e o valor de negócio como polos opostos. Ao investir na estabilidade, na motivação individual e na integração ética da IA, as empresas não apenas sobrevivem à disrupção, mas prosperam através de um desempenho humano sustentável e de alto impacto.
Alexis Thuller Pagliarini é sócio-fundador da ESG4
alexis@criativista.com.br