Alexis Thuller Pagliarini, sócio-fundador da ESG4
Perto de 1.500 pessoas aguardando a apresentação de Amy Webb no SXSW, com seus esperados mapas de tendências. Mas o que aconteceu
foi surpreendente. Amy abriu sua sessão não com slides ou estatísticas, mas com música fúnebre, velas e lenços de papel distribuídos na entrada. O “falecido” era o próprio relatório anual de tendências tecnológicas.
Vestida com uma capa preta, ela declarou para a plateia: “Estamos reunidos aqui hoje para celebrar e lembrar a vida do relatório de tendências”. Mas por que essa atitude drástica? A justificativa de Amy é direta: “O mundo está mudando rápido demais, e um PDF estático de tendências se torna obsoleto imediatamente”. Em vez de perguntar quais tecnologias importam mais individualmente, ela passou a perguntar o que acontece quando vários sistemas amadurecem ao mesmo tempo e começam a remodelar negócios, trabalho, saúde, comércio e a vida cotidiana juntos.
Em vez de tendências isoladas, o novo framework de Amy prioriza convergências — a interseção de múltiplas forças tecnológicas, sociais e econômicas que criam transformações muito mais significativas do que qualquer tendência isolada poderia alcançar.
E foram três convergências destacadas por Amy: 1- Augmentação Humana: Interfaces cérebro-computador e edição genética levantam questões críticas sobre desigualdade biológica e o futuro da capacidade humana — alguns indivíduos poderão em breve ser literalmente mais capazes do que outros, criando uma lacuna para a qual os frameworks sociais e legais atuais não estão preparados. 2- Nova Equação do Trabalho: Esta convergência aborda o que ocorre quando fábricas totalmente automatizadas e sistemas de IA agêntica desvalorizam o trabalho humano. Amy propõe um modelo alternativo, onde atividades historicamente invisíveis — como cuidado, mentoria e construção de comunidade — seriam economicamente reconhecidas. 3- Terceirização Emocional: Amy argumenta que as pessoas sempre recorreram a outras para conforto, terapia, direção e companhia — e o que está mudando é que as máquinas estão cada vez mais assumindo esses papéis.
O recado final de Amy foi um desafio direto aos líderes organizacionais: o problema real não é a tecnologia em si, mas a falta de visão estratégica para lidar com múltiplas disrupções simultâneas. Como ela afirmou: “Tendências dizem o que está mudando; convergências dizem o que é inevitável”. Mas o ponto que gostaria de destacar nesse texto é esse questionamento que ela levanta sobre tendências. Eu sempre fui ligado em tendências e já apresentei, aqui mesmo, neste espaço, análises de tendências de diversas fontes.
Mas, bastavam alguns poucos meses para a gente se frustrar com as tais tendências. Amy acerta ao identificar a luta inglória que é vislumbrar o que
é realmente relevante para apoiar o planejamento estratégico de uma marca ou empresa. O mais
importante agora é estabelecer um panorama minimamente previsível, mas manter flexibilidade para mudanças. Mas há macrotendências que parecem superar essa volatilidade. Puxando a brasa para a minha sardinha, eu diria que os critérios ESG fazem parte dessas macrotendências mais sólidas.
Alguns dirão que Trump e sua turma quebram essa minha teoria, já que se mostram negacionistas, desdenhando as ameaças climáticas e as ações afirmativas em favor de grupos minorizados. Mas não podemos desconsiderar o que está acontecendo nos países mais conscientes e mesmo nas empresas americanas mais empáticas, que não desistiram do seu alinhamento ESG, entendendo que o respeito socioambiental e a governança ética garantem lucratividade e longevidade aos negócios.
Fica aqui, então, meu agradecimento à Amy por relativizar o poder das tendências, mas também meu alerta para que as convergências basilares da ética e do respeito sejam sempre consideradas.
Imagem do Topo: Divulgação