Ricardo Esturaro, escritor, administrador de empresas e especialista em marketing, estratégia e sustentabilidade

Meses após os Estados Unidos oficializarem sua saída de 66 organizações internacionais, 31 delas vinculadas à ONU, os efeitos desse movimento começam a redesenhar a arquitetura e a capacidade operacional da governança ambiental global.

A água está no centro desse risco. Trata-se de um recurso que não reconhece fronteiras: correntes oceânicas, ciclos hidrológicos, poluição plástica e aquecimento dos mares são fenômenos interdependentes que exigem cooperação científica, padronização de dados e coordenação multilateral.

Quando São Paulo enfrenta reservatórios vazios no fim do verão, Teerã raciona água, a Cidade do Cabo flerta com o “Dia Zero” e Los Angeles convive com secas crônicas, fica evidente que a crise hídrica é global, ainda que seus impactos sejam locais.

Com o enfraquecimento da governança global, todos perdem. Organismos multilaterais sustentam redes de observação, integram dados de satélites e embarcações científicas, desenvolvem metodologias comuns e viabilizam comparações históricas. São a infraestrutura invisível que transforma ciência em previsibilidade econômica.

Nesse contexto, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas ocupa papel central. Funciona como uma bússola ambiental, organizando o melhor conhecimento científico disponível. Suas análises sobre aquecimento dos oceanos e eventos extremos orientam governos, investidores e seguradoras. Fragilizá-lo amplia a incerteza justamente quando os eventos climáticos se tornam mais frequentes e economicamente devastadores.

Sem dados confiáveis, a precificação de riscos e ativos se aproxima de um exercício de adivinhação, expondo carteiras a choques climáticos súbitos e não precificados. E imprevisibilidade é um dos piores cenários para os negócios.
A crise do lixo plástico nos oceanos evidencia esse desafio. O impasse nas negociações de um tratado global contra a poluição plástica revela não apenas divergências técnicas, mas a dificuldade política de alinhar interesses diante de um problema que cresce em escala exponencial. Sem um acordo global, permanecemos reféns de ações fragmentadas.

O lixo produzido em um país atravessa oceanos, afeta ecossistemas, impacta cadeias produtivas e a saúde humana. Para grandes empresas, isso se traduz em insegurança jurídica e ineficiência operacional: em vez de um padrão global claro, há um mosaico de legislações desconexas e pressões regulatórias assimétricas.

Um estudo publicado na revista Journal of Hazardous Materials, coordenado por pesquisadores brasileiros, reforça a dimensão do problema. A pesquisa compilou mais de 6 mil registros de contaminação por lixo em ambientes aquáticos em todos os continentes. Áreas “extremamente sujas” foram identificadas em todas as regiões, com exceção da Antártida. Os plásticos representam cerca de 68% de todo o lixo encontrado globalmente.

Esse cenário expõe, simultaneamente, uma oportunidade e uma responsabilidade para o setor privado. Em um ambiente de governança global enfraquecida, apoiar ciência aplicada, tecnologia ambiental e startups voltadas à água deixa de ser filantropia. Torna-se estratégia de negócio e gestão de risco.

Em um mundo marcado por escassez hídrica, volatilidade climática e desconfiança institucional, reputação não se constrói com promessas, mas com escolhas e resultados. A licença social para operar não virá da comunicação; dependerá de ações consistentes e impactos verificáveis. O descaso com a água cobrará seu preço e impactará os negócios com seguros mais caros, cadeias interrompidas, ativos desvalorizados e consumidores mais atentos.

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