Lucas Munhoz, diretor de criação da Bold, exclusivo para o Propmark

Todo mundo que trabalha com publicidade sabe que a rotina se torna uma grande competição. É duro falar isso, mas é verdade. Você precisa ser o mais criativo. Precisa estar no topo. Precisa trazer as melhores soluções. Precisa “pensar fora da caixa” (desculpe o termo) o tempo todo. As agências exigem, os clientes exigem, o mercado exige.

Eu sempre fui um criativo do tipo inquieto. Fui ensinado a sempre questionar, explorar diferentes perspectivas, me mostrar como a pessoa mais criativa da sala (ou da call). Ok, isso foi superimportante na minha formação profissional, mas foi exaustivo. A vida vira um grande pitch e a mentalidade de provação constante vai te consumindo. O meu instrumento favorito é a bateria, por muitos motivos. Eu tenho ídolos bateristas, gosto de ter a responsabilidade de ditar o ritmo das músicas, gosto de me desafiar a improvisar. Mas, o principal ensinamento que a bateria trouxe para a minha vida foi entender o poder do silêncio. Sim! O instrumento mais barulhento já inventado pela humanidade me fez aprender que o silêncio é importante. É uma bela dicotomia.

Antigamente, quando eu sentava para trabalhar, parecia que eu estava em um eterno solo de bateria. Quase como se eu estivesse tocando a introdução de ‘Painkiller’, da banda inglesa Judas Priest, em loop. Muitas notas. Pedal duplo.
Energia lá em cima. BPM altíssimo. Sempre mostrando que eu posso, que eu consigo, que eu sou o mais rápido e o mais preciso. E quando você erra uma nota? Frustração, autocobrança e aquela sensação de incapacidade.

Como baterista ou como criativo, os anos vão passando e você aprende que não precisa se provar o tempo todo. Pelo contrário, muitas vezes o fato de você querer se provar o tempo todo até atrapalha o resultado final. Imagina só um mundo onde Ringo Starr, eterno baterista dos Beatles, tentasse enfiar notas e mais notas em cada canção?

É preciso entender o seu papel, respeitar o silêncio, respeitar o trabalho de quem está ao seu lado. Não é sobre o baterista da banda, é sobre a canção. Não é sobre o criativo, é sobre a campanha.

Não me entenda mal, acelerar é importante. Você precisa ser capaz de acelerar, mas também precisa saber quando acelerar, e o mais importante: por que acelerar.
E não, eu não acho que essa cultura exaustiva pela performance é culpa dos profissionais.

É o que nos falam, o que nos ensinam, o que nos vendem. Hoje eu entendo que trabalho criativo não é tocar o tempo inteiro. Não é fazer barulho para provar que você está ali. É saber quando entrar, quando sustentar e quando deixar a música respirar. É no silêncio entre uma nota e outra que a tensão se constrói. É ali que a expectativa nasce.

O silêncio não é ausência de criação, é parte fundamental do ritmo. E talvez o mercado nunca tenha nos ensinado isso: pausar também é potência.

Imagem do Topo: Divulgação