Tenho visto algumas pessoas falando em reinventar a relação das agências com os clientes. Acho que a palavra boa seria desinventar.

De alguns anos para cá, vejo que muitos clientes inventaram novas relações com suas agências, sempre para o pior.

Falta respeito, falta motivação, falta transparência, faltam até briefings claros.

Do lado das agências, muitas inventaram um medo horrível dos clientes, de perder conta, de levar bronca por ter apresentado uma ideia ousada demais, uma estratégia diferente ou mesmo apenas por discordar do briefing.

O resultado são relações onde gerar um bom trabalho de comunicação se torna quase inviável.

Só por acidente é que em um ambiente tão ruim, negativo e cheio de medos, brota algo criativo, engraçado, memorável.

Por mais que ambas as partes teoricamente queiram sempre o melhor para as marcas, a construção de um ambiente propício ao surgimento de ideias é fundamental.

Ter uma terra fértil para plantar e regar estratégias e ideias, sem medo de errar e levar bronca ou, pasme, perder a conta.

Ganhar e perder contas faz parte do nosso negócio, então melhor perder por ter ido longe demais do que por não ter saído do lugar.

Em geral, aquele cliente que insiste que você faça só o que ele quer, tira a conta por causa de a agência ter feito só o que ele queria.

Então, a questão não é de reinventar, mas de desinventar esses obstáculos que foram sendo inventados nas duas pontas desse relacionamento que, se bem administrado, faz aparecer estratégias e ideias que se tornam cultura popular, constroem marcas, aumentam vendas e furam bolhas nas redes sociais.

A gente aproveita e desinfeta os processos de concorrência longos, excludentes, estressantes e muitas vezes sem resultado final.

Desinventa muitos obstáculos na relação com parceiros e fornecedores, prazos de pagamento malucos e mais um monte de coisas que foram inventadas nos últimos tempos sem trazer nenhum benefício para nenhuma das partes e muitos malefícios para o resultado final das campanhas.

Na área criativa, podemos desinventar a preguiça de criar o mais confortável ou a campanha complicada em que a forma esconde a absoluta falta de ideia e de emoção.

Tem ainda a energia que se coloca para ter um videocase premiado, muitas vezes bem superior ao esforço para ter uma campanha com alto nível criativo.

Desinventar isso seria muito produtivo. Imagine devolver toda essa energia para a criação e produção de campanhas memoráveis.

Nunca gostei da palavra reinventar, porque ainda por cima parece que tem de jogar tudo o que foi inventado fora e começar do zero, e nem sempre é assim.

Basta, na maioria das vezes, simplificar, lapidar, limpar, voltar às origens, Back to basics (desculpe o anglicismo, mas essa campanha é histórica e ilustra bem o pensamento aqui).

Talvez essa seja a melhor providência a ser tomada na relação entre agência e cliente e também com parceiros e fornecedores: desinventar.

Gustavo Bastos é fundador da 11:21